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Serralves pelo olhar da sua directora, Suzanne Cotter


Via / Ágata Xavier e Rui Hortelão

Nasceu na Austrália, passou por Paris, Londres, Nova Iorque e Dubai, até chegar ao Porto. Desde 2012 que Suzanne Cotter é a directora do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Chega de bicicleta. A conversa começa na sala onde está exposta a obra de Liam Gillick AC/DC Joy Division House, uma sala cuja luz era praticamente desconhecida até à sua chegada. “Ver esta janela incrível, desenhada pelo Siza, foi muito simbólico para mim”, explica Cotter, 54 anos. “Quando o convidei a vir cá ele ficou muito feliz por termos destapado a janela”, recordou, na entrevista que deu à SÁBADO em Maio de 2016. “Finalmente, um director entende a minha arquitectura!”, terá dito o Pritzker português.

O que sentiu quando entrou em Serralves pela primeira vez?
A arquitectura foi desafiante quando cá cheguei, não dava para perceber a sua dimensão. Não conseguia entender o sentido e a lógica.
Foi fácil mudar isso?
Mais ou menos. Comecei por tirar paredes [há paredes amovíveis em Serralves] e percebi que estava num espaço muito bonito. Houve uma boa redescoberta do edifício e queria que o público tivesse a mesma reacção, um olhar fresco.
Esta peça de Liam Gillick faz sentido aqui?
Funciona muito bem. Este é o meu quarto ano aqui, mas estamos ainda a começar a testar as possibilidades do museu. Há uma nova forma de pensar a exposição que não segue as convenções.
Aqui constrói um museu dentro de um museu…
Temos um desafio muito interessante, porque somos um museu de arte contemporânea, uma forma de arte que está sempre em mudança.
É possível termos um museu sem paredes?
A Internet é uma espécie de museu sem janelas. Há muitas pessoas que já pensam o museu como um conceito em vez de uma estrutura física. Estou interessada em conjugar ambos. A dinâmica de como as pessoas vivem o museu mudou, é um espaço elástico, poroso e um sítio onde as pessoas têm liberdade de pensamento, de movimentos, de estar em público.
Sai do escritório para ver as pessoas?
Sim, sim, com muita frequência. Devem achar: “Quem é aquela senhora maluca que anda por aí?”
Tem seguido a evolução das instituições portuguesas?
Sigo e tento compreender o que vai acontecendo na paisagem. O panorama está a tornar-se mais complicado porque toda a gente antevê o que é preciso fazer. São tempos diferentes, andam todos a tentar encontrar o seu lugar e o seu papel.
Quais foram as grandes mudanças que sentiu desde que chegou?
As pessoas estão mais interventivas. Fiquei surpreendida quando cheguei por não existirem grandes debates sobre a cultura. De repente as pessoas começaram a discutir sobre os Miró, a sua venda, o debate começou a surgir e isso foi muito saudável. Acho que vivemos num tempo interessante, de uma confiança tremenda mas também de frustrações tremendas. Quando cheguei estávamos no ponto mais baixo da crise económica, com a troika, a dívida, toda a gente estava tão deprimida. Mesmo que o sol brilhasse ninguém se mexia.
Qual é a principal razão para essa mudança?
Podemos pensar em termos existenciais. Quando falo com as pessoas elas dizem que as coisas são como são e temos de andar para a frente.
Sente isso nas instituições?
Há uma frustração grande, acho que as pessoas sentem que há muito mais para fazer. As instituições, em todo o lado, estão a pensar quais serão as pessoas que vão fazer o trabalho no futuro. Como é que damos a oportunidade e criamos os futuros curadores, conservadores, escritores, editores de catálogos, futuros gestores de equipas, futuros técnicos… Encontro grande inspiração nas gerações mais novas, elas abrem os seus próprios espaços, decidem fazer projectos, publicam zines. Pensam: “Ninguém quer saber de nós por isso vamos fazer o que nos apetecer.” E acabam por fazer grandes coisas.
Falou de Miró, os seus quadros serão expostos aqui…
Estávamos todos com esperança que isso fosse acontecer.
Qual é que foi o seu papel?
O meu papel foi dizer que sim, que os mostramos [ri]. A iniciativa partiu do ministro da Cultura [João Soares, na altura].
Como viu toda a polémica?
Eles deviam mostrar os quadros ao público, fazer uma exposição e talvez essa exposição devesse circular pelo País. Mas não estava a pensar em nós porque somos um museu de arte contemporânea e Miró era um artista modernista. Para Serralves é importante que sejamos parte da conversa. Não a liderámos mas contribuímos.
Será na Casa ou no Museu?
Será onde fizer mais sentido para as obras. Perguntei ao Álvaro Siza, caso fizéssemos a exposição, se ele a poderia desenhar. Quero dar uma apresentação contemporânea.
Álvaro Siza Vieira está envolvido?
Ele concordou fazer o design da exposição, o que será fantástico! É uma exposição que precisa de ser mostrada. O público quer ver estas obras e nós mostramo-las da melhor maneira possível.
O Estado português deve ficar com as obras ou não?
Acho que deve ficar. Não seria uma colecção para aqui mas funciona muito bem para outras colecções nacionais. É uma oportunidade fantástica e iria estimular a maneira como as pessoas iriam pensar a colecção, o diálogo (ou não diálogo) entre Portugal e Espanha. Há uma série de coisas que podem ser geradas a partir daí. Às vezes apenas uma obra pode fazer a diferença para a direcção de um museu.


Percorremos outras salas, sempre cheias de alunos do secundário. Suzanne explica que estava na comissão do Guggenheim de Nova Iorque antes de vir para Portugal.

Foi fácil adaptar-se a Serralves?
Sim, porque conhecia a linguagem do museu. Não, porque vinha de uma situação cultural distinta. E por causa da língua, claro. No princípio não falava nada de português, mas as pessoas são fantásticas e bilingues. São mesmo simpáticas – não nos apercebemos até voltarmos a Nova Iorque, onde estão todos maldispostos.
Aprendi a ler a gramática portuguesa mas também a forma como devemos comunicar sem ser verbalmente. Ainda estou a aprender.
Quais foram as motivações para se candidatar a Serralves?
A oportunidade de dirigir um museu de importância nacional e com reconhecimento público.
Onde estava quando soube do convite?
No Dubai, a caminho de Teerão, e pela primeira vez senti-me assustada e comecei a pensar nos prós e contras com o meu marido. Nova Iorque, Porto, Nova Iorque, Porto. Disse-lhe: “Vou fazer isto.”
Com quem é que falou primeiro?
O primeiro contacto foi com a administração. Usei um fato azul-vivo.
Já conhecia a arte portuguesa?
Conhecia o trabalho do Pedro Cabrita Reis e do Julião Sarmento. Um pouco da Joana Vasconcelos, do Jorge Molder, todos os que já tinha visto em Veneza. Senti-me muito novata e lembro-me de ter sentido algum pânico. Agora tenho pontos de referência e preencho os espaços em branco.

Suzanne pára e destaca uma obra que foi executada em Serralves, in situ, por jovens estudantes de Belas-Artes.


Como é que foi cativada pela arte?
Sempre gostei de arte – sempre, sempre, sempre. Escrevi uma peça de teatro quando tinha 8 anos. A professora disse que era tão boa que acabámos por interpretá-la. Depois estudei ciências na escola porque temos de fazer coisas sérias [ri]. Na minha primeira viagem a França, a Paris, fui ao Louvre e senti-me tão emocionada que perguntei a alguém: “O que é que se tem de fazer para se ser responsável por isto?” Tinha 21 ou 22 anos. Eles responderam: “Vous allez à l’école du Louvre” [diz numa voz rouca]. Voltei para a Austrália para estudar História da Arte.
Decide sempre com o coração?    
Sou muito intuitiva. A grande arte faz-me saltar, dá-me energia, faz-me o sangue subir à cabeça e sinto que posso ser uma pessoa melhor.
Qual foi a última vez que sentiu isso fora do trabalho?
Boa pergunta. [Demora-se]. Sinto-o com alguns filmes. Vi um que me fez sentir muito inspirada. Passa-se no Inverno na Anatólia. Há um homem que é escritor…
Sono de Inverno?
Sim, achei-o muito profundo. Acabei de ler um livro maravilhoso da Donna Tartt, O Pintassilgo, e quando o terminei pensei: “Tenho de ser melhor no meu trabalho.” Não é pela história mas pela maneira como as pessoas conseguem usar um meio (pode ser um filme, dança, pintura, fotografia) para expressar a profundidade das coisas. Quando somos jovens sentimos muito isso na música, eu adorava música rock e punk porque achava que estava a falar para mim.

Suzanne Cotter esteve presente na inauguração da exposição “Universalistas – 50 Anos de Arquitectura Portuguesa”, em Paris. Irá ver a exposição sobre Amadeo de Souza-Cardoso mais tarde.

Já conhecia Amadeo?
Sim, já fui ao seu museu em Amarante e vi algum do seu trabalho na Gulbenkian. É muito interessante.
Ainda é muito desconhecido, mesmo para os portugueses.
É? Será porque morreu tão novo? Talvez esta exposição mude isso.
Não era de Lisboa, também…
Aí está o problema. Sente isso aqui em Serralves?
Um bocado, mas é compreensível. No passado, passei por grandes centros metropolitanos e as pessoas sentem que tudo só acontece ali. Os museus deviam poder estar em qualquer lado. Talvez esta exposição no Grand Palais dê uma segunda vida ao Museu de Amarante.
Entramos na sala que tem a exposição de Wolfgang Tillmans. Já conhecia o artista?
Circulávamos pelos mesmos meios em Londres, quando ambos vivíamos lá, e sempre o achei encantador. Quis que ele trabalhasse em condições que o deixassem feliz. Um artista feliz é um bom artista. Não é no sentido de se ser complacente, mas sim garantir as condições necessárias para que possa trabalhar. O Wolf é um artista incrivelmente generoso, mas tem o seu quê de estrela rock. Disse-lhe que não precisávamos de ter uma exposição aqui só porque eu ou outra pessoa queríamos, tinha de ser uma exposição com significado. Por isso foi um win-win: para nós enquanto público e para ele, como artista, porque sentiu que tinha produzido uma exposição especial.
Acha que se não tivesse tido a experiência de Londres seria mais difícil trazer estes artistas?
Não diria isso. Serralves tem uma óptima reputação. Não sou uma perita ou alguém que sabe tudo sobre arte portuguesa dos anos 60, mas posso trazer outras coisas, que podem relacionar-se numa perspectiva diferente daquela que já existe. Falando genericamente, depende da visão da pessoa que está a guiar o carro.
Gosta de outsiders?
O meu papel aqui é não ter medo de mostrar arte que possa parecer difícil. Noutros tempos, Robert Rauschenberg foi difícil, Picasso foi incrivelmente difícil (ainda é para muita gente). O Wolfgang tem um trabalho que é difícil mas que também é incrivelmente sensível. Alguém pode olhar para esta obra e dizer apenas: “Que linda, adoro o oceano.” Isso ia ser simpático.
É importante encontrar o equilíbrio entre conhecedores e o público em geral?
É importante e digo-o desde que cheguei, não estamos aqui por nós. Serralves foi construído para o público. Também foi construído para os artistas, que para continuarem a crescer precisam que o público reconheça o seu valor.
Nestes três anos, algum artista lhe pediu para vir cá expor?
Muitas vezes, mas é normal.

Saímos para o jardim sem noção do tempo e ficamos a saber que Suzanne adora polvo à lagareiro e passear à beira-mar.

Gosta do Porto?
É uma cidade muito verdadeira, não é superchique, é muito real e as pessoas são muito humanas.
Como é o seu dia normal?
Tomo o pequeno-almoço com o meu marido e depois vejo os emails. Há dias em que tenho várias reuniões com a minha equipa. Os dias são longos, num dia típico saio da fundação pelas 19h30 ou 20h, vou para casa, relaxo, janto e trabalho mais um bocado.
Nunca descansa?
Não, trabalho com pessoas que estão em diferentes fusos horários.
Costuma ir a Lisboa?
Sim, é um pouco frustrante porque nem sempre posso ir às inaugurações. Tento ir, idealmente, uma vez por mês, mas acabo por ir a cada seis semanas para ver as exposições que estão a decorrer, falar com pessoas, visitar ateliês.
Que artistas achou mais surpreendentes em Portugal?
Uma artista que acho absolutamente incrível é a Lourdes Castro. É tão extraordinária e bonita. Foi surpreendente a quantidade de jovens artistas interessantes que encontrei e adoro o [projecto] Uma Certa Falta de Coerência.

Antes da sessão fotográfica exterior, perguntamos se o parque vai ganhar mais protagonismo. Suzanne responde que uma exposição de Haegue Yang será inaugurada ali em Junho – será a 22. Brincamos sobre a possibilidade de o jardim receber outro tipo de eventos.

Tiveram um casamento mediático [de Jorge Mendes] no ano passado…
Não foi o meu [ri].
Como se pode casar em Serralves?
Estamos concentrados em reduzir o número de eventos e torná-los mais exclusivos, não no sentido de excluir pessoas, mas de torná-los mais rentáveis. Este é um monumento nacional, um sítio extraordinário, por isso tem de ser uma coisa especial. É um automatismo que nos permite desenvolver um programa, ter alcance na educação e em tudo o resto. Precisamos e esta é a realidade.

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