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“Gostei logo dos emigrantes portugueses, os filhos dos Grandes Descobridores”


Via / Ana Sousa Dias

ORLANDO ALMEIDA / GLOBAL IMAGENS

Entrevista a Gerald Bloncourt, fotógrafo, pintor, escritor e poeta

Conheceu e fotografou muitos portugueses. Como aconteceu isso?

Tudo começou quando tinha 6 ou 7 anos, no Haiti, e li sobre os Grandes Descobridores – Vasco da Gama, Magalhães, Henrique, o Navegador. Fiquei entusiasmado. Vi no mapa onde ficavam Lisboa e o Porto, e disse: hei de ir a este país. Os Grandes Descobridores tinham-me apaixonado e queria também eu descobrir o mundo. Isso ficou num lugar qualquer da minha cabeça. Aos 20 anos vim para França, condenado à morte e expulso do meu país, na sequência da contra-revolução, em 1946.

Esteve envolvido na revolução do Haiti?

Sim, tínhamos deitado abaixo o governo, pegámos em armas. Antes de Fidel Castro, conseguimos deitar abaixo um ditador. Mas a França e os Estados Unidos intervieram, apoiaram a junta militar e tomaram o poder. Começou a repressão. Fui para a Martinica durante dois meses e meio. Tenho origens em Guadalupe, tinha um tio que era deputado em França. Aimé Césaire também era deputado, estava na Martinica. Os dois conseguiram que eu fosse autorizado para vir para França, sem papéis. Quando cheguei, só tinha nas mãos o desenho e a pintura – era pintor e gravador.

Ainda não fazia fotografia?

Nada. Preparei o curso para professor de Desenho na École de la Ville de Paris, em Montparnasse, na Grande Chaumière, e vivia em casa de uma tia, onde tinha estado o meu irmão mais velho, Tony Bloncourt. Ele tinha vindo em 1938 com uma bolsa, entrou na Resistência e foi fuzilado em 1942 no Mont Valérien, aos 21 anos. Um grande herói. Tenho uma carta extraordinária que ele escreveu poucas horas antes de ser fuzilado. A carta foi publicada em livro, em todo o lado. É extraordinário quando a lemos. Há uma placa com o nome dele na Assembleia Nacional, todos os anos há uma homenagem com flores, a guarda republicana, espingardas.

Como foram esses primeiros tempos em França?

Estudava para preparar o professorado e à noite descarregava caixotes de legumes nos Halles para ganhar a vida, e fazia desenhos para uma galeria que mos comprava. E por acaso arranjei trabalho numa casa de fotografia, com a grande câmara num tripé, um pano por cima, “sorria”. Sucedi a [Félix] Nadar, simplesmente… Comecei por aprender a técnica fazendo fotografias nos grandes colégios por toda a França. Mas não me interessava andar pela província a ver professores e alunos. O patrão mandou-me à Catedral de Chartres para reproduzir os vitrais, lá fui aprendendo. Sou um dos raros sobreviventes de todos os caminhos da fotografia, das câmaras grandes às máquinas de placa, depois a Leica, a Rolleiflex e o digital.

Utiliza o digital?

Claro que sim, há que tempos. Aderi à informática imediatamente, fui uma das primeiras pessoas a comprar um computador, um Macintosh. Escrevo os meus textos, os meus poemas, pagino os meus livros, trabalho as fotografias no computador. Sou especialista, estou bem equipado. Mas quando a minha filha mais nova tinha 8 anos – hoje tem 25 -, eu li nas revistas de informática que havia uma máquina com cinco milhões de pixels. Pensei: vou comprar. Fui a uma loja profissional de fotografia na Bastilha. Há muito tempo que não ia lá, fizeram-me uma grande festa. Durante meia hora explicaram-me como funcionava a máquina digital, paguei e quando cheguei a casa pousei nesta mesa onde estamos um café, as instruções e a máquina. E tinha esquecido tudo, não sabia o que fazer. E a minha filha disse “papá, é assim e assado”. Foi ela que me ensinou.

Aprendeu com ela?

Fiquei humilhado. Como é que um tipo que sabe informática e fotografia é ensinado por uma debutante? Fomos para a rua, comecei a tirar fotografias e fui-lhe mostrando. Aí, a admiração mudou de campo. Portanto, passei para o digital. Já tinha conseguido classificar todas as minhas fotografias, por insistência da minha mulher, a Isabelle. Estamos juntos há 28 anos, ela é jornalista. Estava tudo espalhado, precisei de um ano para organizar tudo, oito ou nove horas de trabalho por dia. Fiz uma base de dados. As fotografias estão todas classificadas, tenho 200 mil ou mais. Agora tenho uma agência que distribui as minhas fotos pelo mundo todo, chamada Rue des Archives. Estão sempre a publicar fotografias minhas.

É surpreendente que se tenha rendido ao digital.

Fui convidado de honra do Festival de Imagens de Biarritz há uns dez ou 15 anos. Estava na tribuna, com todos os velhos fotógrafos, os velhos palermas. Na sala estavam os jovens fotógrafos. Discutia-se o digital e as máquinas de película. Grande discussão. Todos os velhos defendiam o analógico, mas eu já fazia digital há vários anos. Um jovem perguntou: “Gérald Bloncourt, com que é que trabalha?” “Eu trabalho com digital há vários anos.” Gritos: “Hurra!!!” Eu era o único velho com digital.

E porque é que prefere?

Não tem limites, é extra-or-di-ná-rio! Quando se trabalhava com as grandes câmaras e máquinas com placas, era preciso regular tudo, o diafragma, a distância. Sonhei com uma máquina que fosse o prolongamento dos reflexos do homem. E agora existe. Escrevi teorias, artigos sobre isso, disse que não há nada menos objetivo do que a objetiva fotográfica, falei dos meus erros ortográficos na fotografia – é uma escrita. A fotografia é a escrita do nosso tempo.

Diz que não há nada de menos objetivo do que uma objetiva fotográfica. Não foi nunca objetivo?

O Partido Comunista Francês soube que havia um jovem fotógrafo dinâmico que era militante e convidou-me para o L”Humanité. Mas eu disse: a fotografia não se escreve com um F grande. Há fotografia de desporto, de moda, o fotojornalismo, a fotografia científica, de culinária, a pornográfica. Eu não sou fotojornalista. Não te preocupes. E lá fui eu com as máquinas de placas. Foi lá que aprendi a profissão, no L”Humanité. Havia um coletivo chamado Maison de la Pensée Française [Casa do Pensamento Francês], fundada por poetas, pintores, todos os intelectuais. Eu estava lá porque também era escritor e não concordava com o Partido Comunista em relação ao realismo socialista, que na altura o Aragon defendia. Queriam que se pintasse os operários com as ferramentas na mão, à soviética. Mas eu não queria opor-me, tinha medo de que me pusessem na rua. E além disso pensava que o partido era necessário para mudar a sociedade. Então pintava clandestinamente, eles não sabiam que eu era pintor. Mas sempre pintei, ainda continuo. E exponho e faço digigrafias, tenho publicado no meu blogue.

Mas a fotografia já era a principal atividade?

Sim. Descobri que a fotografia é uma arma para mostrar o homem na sua maior verdade, para participar, para denunciar, para comunicar. Eu não sou objetivo, eu tomo partido nas minhas fotos. Um fotógrafo diz com as suas fotografias aquilo que quer dizer, as suas opiniões. E depois há o jornal que publica, também aí há uma escolha. Há muita discussão sobre isto. Percebi que há o ver e o olhar, são coisas diferentes. Podemos estar horas a fazer filosofia sobre isto. Ver e olhar. Continuei sempre a escrever, sou estudado nos liceus em França, estou na antologia da editora Seghers e tenho poemas na antologia dos poetas haitianos acabada de publicar.

Que nacionalidade tem?

Tenho a nacionalidade francesa, fui europeizado por força maior, mas continuo a ser do Haiti. Estou sempre em contacto, vou voltar lá em outubro, vou expor lá. A princípio tinha medo do que ia encontrar. Já lá fui onze vezes desde a queda da ditadura, em 1986. Fui logo para lá uma semana depois. Sou presidente da comissão para julgar Duvalier, fui eu que a fundei. Ele morreu mas vamos continuar para tentar julgar também os outros. Consegui juntar todos os comités, do Québec, de Miami, do Haiti, de França, temos agora um grupo com grandes advogados, fazemos um bom trabalho. Fazemos videoconferências, sou eu que coordeno isso, todos em direto. Dantes, era preciso virem todos a Paris, agora fazemos por videoconferência, cada um na sua casa.

Estava a falar do tempo do L”Humanité…

Tive graves divergências políticas com o PCF, tiraram-me do L”Humanité e puseram-me no Avant-garde, o jornal da juventude comunista. Fizemos aí o primeiro jornal em off-set da França. Mas tivemos problemas com o partido. Fizeram uma receção, pensei que iam receber uma delegação soviética, talvez com membros do comité central, e o chefe disse: “Bloncourt não foi servido, passem-lhe uma taça.” A reunião afinal era por minha causa. E disse-me: “Tu és um um tipo com qualidade, não vais ter dificuldade em arranjar trabalho.” Fui despedido.

E arranjou trabalho?

Trabalhei para jornais dos sindicatos, La Vie Ouvrière, da CGT. Ainda ontem almoçámos juntos, um bando de velhos, alguns já morreram, outros estão doentes e não apareceram. Éramos 22, todos gostam de mim. Pus uma foto no Facebook. Trabalhei para a CGT, a CFDT, o Nouvel Observateur, o Témoignage Chrétien, La Vie Catholique… Tinha 17 clientes. À noite pegava na moto e ia deixar envelopes nas caixas de correio das redações e depois ia viver com mineiros, com os estivadores, andei por toda a França. Conheço toda a Europa, exceto a Suécia.

E Portugal?

Já lá vamos. Fiz a minha carreira, tornei-me independente. Ia viver com os operários, comia o pão deles, bebia o vinho deles, ia com eles para o trabalho. Comecei a ser conhecido. Finalmente, a ditadura caiu no meu país, eu tinha uma filha com 2 anos – Ludmilla, que tem agora 30. Separei-me da minha mulher – disse-lhe “refaz a tua vida”, como os fuzileiros, e fui para o Haiti. Depois regressei e conheci a Isabelle, estamos juntos há 29 anos, com quem tive a Morgane, que tem 25 anos. Tenho uma filha mais velha, de 63 anos, que já fez de mim bisavô duas vezes. E todos vivemos em harmonia, damo-nos todos bem.

Vou voltar à primeira pergunta: como conheceu a comunidade portuguesa?

Ao longo das minhas peregrinações, conheci muitos imigrantes, e como vim do Haiti, isso interessa–me. Falava muito com eles. Fotografei a construção da Tour Montparnasse em Paris, andar por andar, e um dia deparei com os portugueses. Ah, os filhos dos Grandes Descobridores! E eles eram calmos, enquanto os norte–africanos eram agitados. Eles eram calmos, trabalhavam bem, limpavam as ferramentas. Eu sei a importância disso, sou bricoleur, sou pedreiro, canalizador, faço tudo – fui eu que coloquei o parquet aqui em casa, fiz aquele armário. Há uns anos comprei uma ruína com a Isabelle, era uma casa pequena, e agora temos uma boa casa. Chamei operários para aumentar e tudo isso, mas fiz o essencial. Observei os portugueses a trabalhar e aprendi com eles a ser pedreiro, a pôr o estuque.

Foram os portugueses que o ensinaram?

Observei-os, falei com eles, aprendi as receitas deles, as misturas da cal, da areia, como usar o cimento. Queria ver onde eles moravam, e eles viviam nos bidonvilles [bairros de lata]. Estávamos em 1964. O primeiro bidonville onde estive foi Champigny, e entrei em contacto com eles. E depois conheci resistentes contra a ditadura de Salazar, estive em Portugal no tempo de Salazar, em 1966. Não sabia uma palavra de português e ainda hoje não conheço.

Já me disseram isso, os seus amigos. Como foi essa viagem?

Atravessei o país todo, Lisboa, Porto, Chaves. Quando estava para partir, a PIDE prendeu-me. Mas eu tinha visto na véspera que havia dois polícias a vigiar-me na véspera. Pensei que tinha de colar os rolos nas costas, mas precisava de adesivo. Então fui a uma farmácia e comprei adesivo, mercurocromo, gaze, algodão, aspirinas, álcool, uma farmácia inteira, para não desconfiarem do que ia fazer. No dia seguinte, peguei numa meia e pus lá dentro sete rolos que tinham as imagens mais importantes, toda a miséria de Portugal. Enrolei com elásticos para não chocarem uns com os outros, colei a meia nas minhas costas. Admiro as mulheres quando prendem o sutiã, porque eu tive de me esforçar para colar aquilo tudo… Ao mesmo tempo, peguei numa série de rolos que não tinham interesse nenhum e escondi-os na roupa suja, nos sapatos, e pus isso na mala. Tinha alugado um carro, entreguei-o no aeroporto. Foi então que fui preso pela PIDE.

E apanharam os rolos que tinha escondido nas costas?

Levaram-me para uma sala, abriram a mala e viram os outros rolos. Pensaram que tinham apanhado tudo, apalparam-me mas não tocaram nas minhas costas. Senti que aquilo começava a descolar-se. Desatei aos gritos: “O que é isto, sou um jornalista profissional!” “Não se preocupe, vamos revelar os filmes e depois enviamos-lhe.” Fizeram-me perder o avião, tive de esperar quatro horas pelo seguinte, e os rolos magoavam-me as costas. Estava com tanto medo que fiquei imóvel, aquilo fazia doer. Quando cheguei a Paris, passei sem problemas a alfândega. Apanhei um táxi e fui para casa, vivia no HLM do Chaperon Vert na altura. Cheguei a casa e as crianças aos gritos agarraram-se a mim – o pai voltou! Quando tirei finalmente os rolos, estava coberto de nódoas negras. As fotos estavam lá, são conhecidas, foram publicadas, expostas, estão no meu livro sobre Portugal. Vou fazer uma exposição com elas em Fafe em breve e estão expostas no Museu da Imigração em Paris. Tudo se salvou.

Sempre lhe devolveram os rolos?

Nunca, mas eram imagens sem interesse, os monumentos de Lisboa, coisas assim.

Ficou curioso por conhecer Portugal depois de ter conhecido os emigrantes?

Sim, com as minhas visitas e conversas nos bidonvilles, fiz muitos amigos. Uma vez estive em Saint–Denis e bebi vinho do Porto com eles, comi com eles, e depois ia-me embora, com as minhas três máquinas. Tinha feito todas as fotos, só me restava uma. Ia para o carro e uma miúda de 8 anos que me conhecia, porque eu tinha ido lá várias vezes, estava ali à espera que eu a fotografasse, com a sua boneca e o seu bolo de Natal. Era na altura do Natal. Última foto! Fiz a foto e fui-me embora. Anos mais tarde, em 2008, fui convidado para expor em Lisboa, uma grande exposição na Fundação Berardo que durou seis meses. Puseram a imagem da miúda no cartaz. Os amigos dela disseram-lhe que havia uma foto dela na exposição. Ela enviou-me um e-mail – “Talvez seja eu.” Fizemos umas perguntas, era mesmo ela. 44 anos depois! Chama-se Maria da Conceição Tina Melhorado, tinha voltado para Portugal, estudou na Universidade de Coimbra, é professora. Ficámos amigos e ela vem a Paris de vez em quando. Faz parte da família, e é uma mulher fantástica, comprometida com a sociedade. Uma vez, o filho dela estava na escola e a professora projetou as minhas fotos de Portugal. Ele disse: “É a minha mãe!” Explicou a história na aula e quando chegou a casa contou-lhe. “Não tiveste vergonha?”, perguntou-lhe ela. “Não, fiquei orgulhoso.” Ela escreveu um livro onde conta a vida dela, eu fiz o prefácio.

Fez no ano passado um livro sobre a sua relação com Portugal, O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores [edições Converso, 2015], com prefácio de Eduardo Lourenço.

Está lá o Portugal dos bidonvilles, os trabalhadores, a passagem clandestina de Espanha para França – fiz essa viagem com eles – o Portugal sob Salazar e a Revolução dos Cravos. Tive uma sorte incrível, estive lá. Fui no avião com Álvaro Cunhal e os seus camaradas. Cantavam canções revolucionárias e batiam os pés. Veio a hospedeira aflita – “O piloto pede para pararem com isso, o avião pode cair!” Quando chegámos a Lisboa, sem passaporte, sem segurança, havia milhares de pessoas, tanques, soldados, e Cunhal subiu para um tanque para falar. Houve tantos encontrões que não consegui fazer fotos. Falhei, não consegui fazer. Estava emocionado, tinha lágrimas nos olhos, era difícil. Passei dois dias e duas noites em Lisboa, apanhei o primeiro 1.º de Maio em liberdade, tirei fotografias. Não valia a pena ir a restaurantes, estavam cheios. Quando tinha fome, as pessoas davam-me pão, cerveja, vivi assim durante dois dias. Vi tipos a sair das prisões, que não viam a família há dez anos.
Voltei com muitas imagens, muitas foram publicadas por todo o lado, Nouvel Observateur, L”Express, Nouvel Économiste, La Vie Ouvrière, CGT, não tive dificuldades.

Continua a trabalhar?

Tenho dez mil fotografias na agência Rue des Archives. É uma das maiores do mundo, foi comprada por uma agência mundial e tratam muito bem as minhas fotografias. Há uns tempos estive em Saint-Malo, fui convidado para o festival de fotografia, e fiz imagens da praia, enviei e eles vendem-nas. Estão sempre a vender fotos minhas. Fui convidado de honra no Quebec há quatro anos, agora vou ser convidado de honra no festival de fotografia da Córsega, estive em Roubaix na semana anterior, porque descobriram as minhas fotos da indústria têxtil, as operárias, as fábricas antigas. Descobriram as fotos há dois anos e não param de me convidar, estamos fazer um livro.

Conheceu todo o género de pessoas?

Sim, conheci Picasso, Lurçat, Charlie Chaplin. Tenho uma exposição neste momento na galeria Dorothy”s, aqui perto [27, Avenue Keller, Paris 11]. Tenho 70 fotografias de Belmondo, Sheila, Charles Aznavour, Yves Montand, Blaise Cendrars, Cocteau, Brel. Brassens era meu amigo. Tenho um livro chamado Paris de Gerald Bloncourt, na galeria talvez tenham. Tenho fotos de operários, namorados, gente a trabalhar nos esgotos e também os artistas.

O que é que aprendeu sobre os homens, depois de conhecer tanta gente?

Aprendi que tinha escolhido um bom caminho com eles, solidário. Desde os 17 anos sou uma pessoa comprometida com a sociedade. Quando tinha 7 anos, no Haiti havia contadores de histórias que passavam todos os dias, como nas Mil e Uma Noites. Recebiam uma moeda, um bocado de pão. Um deles chamava-se Diógenes, velho, cabelos brancos, preto, roupas esfarrapadas. Ele trazia um saco que punha à nossa porta, começava a contar. Todas as crianças do bairro, das barracas ali perto, vinham ouvi-lo. Eu não tinha autorização para ir para a rua, havia uma grade de ferro. Maman Dedé, a minha ama haitiana, dizia-me: “Tem cuidado porque ele é um vagabundo.” Eu ficava a ouvir as histórias e quando acabava a Maman Dedé dava-me umas moedas para eu lhe dar, outros davam bocados de pão, e ele ia-se embora com o seu grande chapéu. Um dia, ele estava lá a contar histórias e apareceu um camião com polícias, agarraram-no e começaram a bater-lhe.

À sua frente, à frente de toda a gente?

Sim, diante dos meus olhos. Havia uma grande trave de ferro para abrir o portão, eu queria abri-lo para ele entrar, mas não tinha forças. Depois de lhe baterem, levaram-no e a Maman Dedé ouviu os gritos – estávamos todos aos gritos – e veio ter comigo. Perguntei-lhe porque tinham feito aquilo. Ela respondeu: “Meu querido, é assim no Haiti.” Resignada. Eu estava furioso e disse: “É preciso mudar, não é justo, é preciso mudar o mundo.” Havia um barco de turistas americanos que chegava no dia seguinte, era preciso limpar a cidade de todos os mendigos, escondê-los nas prisões. Bateram-lhe tanto que ele morreu. Nunca mais voltou. Morreu. Fiquei revoltado. Acho que nesse dia me tornei revolucionário e nunca mais deixei de sê-lo, até hoje. Por vezes digo: sou comunista e vocês não eram.

Foi isso que disse ao PCF?

Publiquei um livro, o L”Oeil en Colère, e contei o meu percurso de fotógrafo do Partido Comunista. Disse coisas muito duras, críticas ao partido. Há dois meses, vieram ver-me. “O que é que vão escrever no vosso jornal se eu disse mal de vocês?” E responderam: “O Gerald tinha razão.” Fizeram três páginas no L”Humanité e vêm outra vez aqui para fazer mais três páginas sobre o livro de Portugal. Hoje tenho amigos em toda a esquerda. A Arlette Laguille, o Petit Facteur, Besancenot, até fiz um livro com o seu conselheiro, Michael Löwi, sobre a visita de André Breton ao Haiti na revolução de 1946. Amanhã vou almoçar ao Partido Socialista e vou assinar livros. E o Partido Comunista também. Como disse o L”Humanité, anda a fazer trabalhos sobre mim. Digo-lhes a todos: quando é que vocês se entendem e lutam em conjunto? Quando se juntarem as coisas mudam.

Como aconteceu em Portugal?

Eu sei, e acho que é preciso fazer isso. Têm saído reportagens sobre mim e o meu trabalho, as minhas exposições, em vários jornais. Tenho muito orgulho porque é uma conquista. Ainda bem que vivi tempo suficiente para ver tudo isto.

Continua a fumar?

Sim, fumo de vez em quando. Mas o médico disse-me que não vale a pena deixar, porque fumo pouco. Sabe que tenho dois cancros? Cada um do seu lado faz o seu trabalho. Os pulmões e o palato. Primeiro descobriu-se o do palato, porque os dentes sangravam, fizemos exames e descobriu-se o dos pulmões. Mas ao contrário do que se pensou primeiro, não são metástases do palato. Era um outro pequeno cancro tranquilo que trabalhava do seu lado. Trataram-me, já faz um ano.

Fez quimioterapia?

Não somos eternos e eu sei isso há muito tempo, desde que me condenaram à morte, em 1946, no Haiti. Trataram-me, fizeram progressos formidáveis. O dos pulmões está parado, em remissão. Pode voltar, daqui a dois ou seis meses, dez anos. Operaram-me ao palato, tiraram-me toda a mucosa, arrancaram-me quase todos os dentes e fizeram um transplante que correu bem.

A verdade é que tem uma vida extraordinária. Tem consciência disso?

Inacreditável. Eles querem prolongar a minha vida, têm conseguido, estou cá para vos chatear ainda algum tempo. Vai tudo bem exceto os pés, porque a quimioterapia deu cabo dos nervos dos pés e portanto tenho problemas para andar demasiado tempo. Os meus pés parecem de cartão, mas tudo o resto está bem. Tenho uma gripe há dois dias, por isso estou a tossir, mas já estou a melhorar. Há dois dias tinha febre. Não me podem vacinar contra a gripe, era preciso uma vacina especial. Mas tudo bem. Amanhã vou assinar livros à Mairie du 11ème.

O que vai fazer nas próximas semanas?

Na próxima semana vou quatro dias para a Córsega, sou convidado especial do Festival de Fotografia. Depois vou fazer um livro sobre Roubaix. Depois hei de ir a Fafe para a exposição, e neste ano ainda quero ir ao Haiti. Tenho trabalhado nisso todo o tempo. Hélàs, sou um escravo moderno.

Mas com prazer?

Sim, claro que sim.

E a condecoração portuguesa que vai receber no dia 11 em Champigny?

Enviaram-me uma carta que lhe vou mostrar [do embaixador de Portugal em Paris, Moraes Cabral]. A minha mulher diz que tenho de dizer duas palavras em português. E pedi ajuda à Carina Branco, uma jornalista portuguesa (da RFI) que é magnífica, fez um filme sobre mim nos bidonvilles. Ensinou-me a dizer em português “Viva Portugal, viva a França, viva o Haiti e viva os povos do mundo inteiro”, estou a tentar decorar e tentar encontrar o sotaque.

Mantém contacto com a comunidade portuguesa que fotografou? O que é feito deles?

Eles arranjaram casas próprias, tornaram-se comerciantes, empresários, tudo como deve ser. Hoje há uma nova vaga de emigração. Mas eles adaptaram-se bem. E lutaram por isso. É um povo de filhos dos Grandes Descobridores.

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