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O Sequeira já é de todos nós


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A campanha de angariação de fundos conseguiu em seis meses os 600 mil euros necessários para o Museu Nacional de Arte Antiga comprar uma importante pintura portuguesa. O envolvimento dos cidadãos, bem mais empenhados do que as empresas, foi a grande surpresa.

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) anunciou esta quarta-feira que atingiu os 600 mil euros necessários para comprar o quadro Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, actualmente nas mãos de privados, três dias antes do previsto.

A campanha “Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo” conseguira horas antes uma das suas maiores contribuições com os 35 mil euros da Fundação da Casa de Bragança. Anteriormente, apenas a Fundação Aga Khan, com 200 mil euros, tinha ultrapassado esta doação. No site sequeira.publico.pt surge agora uma mensagem de agradecimento: “Alcançámos os 600 mil euros, graças a todos! Juntos conseguimos pôr o Sequeira no lugar certo. Muito obrigado!”.

Na conferência desta tarde, preparada em cima da hora para assinalar a conclusão da campanha, o entusiasmo de António Filipe Pimentel, o director do museu lisboeta, era naturalmente visível. Pelo envolvimento dos principais parceiros, o PÚBLICO, a RTP, a agência de publicidade Fuel e a Fundação Millennium BCP; pelo contributo dos cidadãos (mais de 15 mil particulares), das empresas, fundações, escolas, autarquias e juntas de freguesia (ao todo, são 172 as entidades que quiseram associar-se a esta angariação de fundos).

“Foi uma campanha com uma escala insólita, esmagadora, que nos mostrou a capacidade realizadora dos cidadãos”

, disse, salientando contributos como o dos alunos da Casa Pia de Lisboa – “acharam que tinham o dever moral de contribuir”, já que Sequeira foi bolseiro da instituição em Roma –, da Câmara de Montalegre, “que fez uma verdadeira homilia a apelar ao contributo dos seus munícipes”, do liceu que o próprio Pimentel frequentou em Coimbra e dos colegas dos museus nacionais Machado de Castro (Coimbra) e Soares dos Reis (Porto).

O quadro ficou totalmente iluminado esta quarta-feira no site da campanha, assinalando desta forma o sucesso e o termo da iniciativa que apelou ao envolvimento da sociedade civil. Pela sua dimensão e pela participação dos media a uma escala nacional, foi uma campanha inédita em Portugal, embora seja prática comum em vários países há décadas.

Na longa lista de agradecimentos com que deu início à conferência de imprensa, Pimentel não poderia deixar de referir a Fundação Aga Khan, que em Março oficializou um contributo de 200 mil euros – de longe o mais elevado da campanha, que por si só assegurou a compra de um terço da pintura. “Um acto de grande generosidade, mas também de tolerância”, já que tem a particularidade de partir de uma fundação de raiz islâmica e de se destinar à compra de uma obra que tanto fala aos católicos.

O ministro da Cultura, que antes de o ser foi dos primeiros cidadãos a contribuir para a compra desta Adoração, falou de uma “campanha exemplar” que resultou num “grande movimento de cidadania”. “Ganhámos hoje um Sequeira”, disse Luís Filipe Castro Mendes. “Pusemos o Sequeira no lugar certo e por isso estamos todos, todos, de parabéns.”

Para o novo titular da pasta, que fez questão de mencionar o papel que nela teve o seu “antecessor e amigo” João Soares, a quem se deve a criação de uma task force para a mobilização de empresas e outras entidades, esta campanha é um exemplo da forma que pode assumir “uma das linhas de força da política deste Governo” para o sector – “a que leva a cultura às pessoas e as pessoas à cultura”. Esta campanha mostrou, acrescentou ainda, que, “com o estímulo certo, a mensagem certa, se consegue mobilizar o público” e “entrar na sensibilidade dos cidadãos”.

Em resposta às perguntas do PÚBLICO, Castro Mendes disse ainda que campanhas como esta se devem repetir, ainda que adaptadas às necessidades de cada momento e instituição. E que não devem ser exclusivas dos museu nacionais nem dos grandes centros de Lisboa e Porto. “Temos assistido a fenómenos culturais notáveis no interior do país”, acrescentou o ministro, explicando que os equipamentos construídos nos últimos 20 anos “não estão abandonados, mas vivos”: “Há um movimento de cidadania pela cultura em todo o país.”

Para já, Pimentel não tem prevista outra campanha – “não podemos correr o risco de banalizar estas iniciativas” –, mas não afasta o cenário de algo semelhante no futuro. “Quero acreditar que é uma campanha transformadora”, que fez “jurisprudência”, disse, defendendo que a equipa do museu sentiu, desde o início, “o peso da responsabilidade extrema de fazer vingar um instrumento que ficaria à disposição de todos”, caso o objectivo fosse atingido. “Há em tudo isto um grande sentido de comunidade.”

“Uma revolução”

O director do MNAA concorda com a expressão que Castro Mendes usou para se referir à iniciativa – um “impulso de cidadania” – e vai mais longe, chamando-lhe uma “verdadeira revolução”: “Foi uma revolução porque, ao contrário dos golpes de Estado, que vêm de cima para baixo, a força desta campanha veio da base, dos cidadãos. Foram os cidadãos que pressionaram as empresas.

Ao PÚBLICO, o director do MNAA admitiu sentir-se “orgulhoso” por ter conseguido reunir os 600 mil euros exigidos sem ter sido necessária a intervenção do Estado. “Esse era para nós um ponto de honra. Cinco euros que fossem do Estado desautorizavam a campanha, o esforço dos cidadãos”, disse, sublinhando que esta angariação de fundos não é apenas “pedagógica” no que toca à sociedade civil – é-o também no que diz respeito ao poder central. “Esta campanha lembra ao Estado que, apesar das aquisições que tem vindo a fazer para as suas colecções, a começar pelas desta casa – aquisições de valores muito inferiores a este –, tem de subir a fasquia dos seus investimentos nos museus públicos.”

Para já a pintura vai ficar onde está, na entrada do museu, até ao dia limite da campanha, 30 de Abril. Depois será sujeita a uma intervenção de conservação e restauro para que a 21 de Maio, na Noite dos Museus, possa voltar a ser exposta. Nesse dia, o MNAA faz a festa da campanha, organizada pela discoteca Lux-Frágil, agradecendo a todos os que contribuíram. “Primeiro foi o museu ao Lux, agora é o Lux que vem ao museu”, disse Pimentel. Só no princípio de Julho – em data ainda a anunciar porque a reinauguração das galerias de pintura e escultura portuguesas, inteiramente renovadas, depende da agenda do Presidente da República – deverá ocupar o seu lugar definitivo no percurso expositivo, ao lado das esculturas de João José de Aguiar e de outras pinturas do próprio Sequeira e de Vieira Portuense.

Uma equipa excepcional

Esta campanha de angariação de fundos dividiu a Adoração dos Magos em 10 milhões de pixéis para que cada português pudesse participar com um esforço mínimo de seis cêntimos. Feitas as contas ainda antes de entrar a contribuição da Casa de Bragança, foram reunidas 5.430 contribuições de particulares (219.933 euros) e 172 de empresas e outras entidades (356.414 euros), um número que é no entanto enganador porque algumas destas entradas juntam centenas ou mesmo milhares de pessoas, como a relativa à da festa do Lux e algumas transferências bancárias.

A contribuição que fechou a campanha partiu da Fundação da Casa de Bragança, a instituição a que Marcelo Rebelo de Sousa presidiu até ocupar o seu lugar em Belém. A participação do Presidente da República foi, aliás, um dos grandes impulsos que o director do Museu de Arte Antiga identificou nesta recta final, em que chegaram ainda cheques da Fundação Belmiro de Azevedo (dez mil euros) e contributos de várias empresas e escolas, incluindo o Agrupamento Domingos Sequeira, de Leiria.

Ainda esta quarta-feira, e porque a iniciativa termina, curiosamente, no “seu” dia, o Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga associou-se à campanha com uma doação de cinco mil euros.

Até esta hora não tinham ainda dado entrada os contributos já anunciados da ANA – Aeroportos de Portugal (20 mil euros) e da Câmara Municipal do Porto (15 mil). Na mensagem de agradecimento, o site da campanha explica, aliás, que “todas as contribuições ainda em processamento serão contabilizadas”.

“Fiquei agradavelmente surpreendido com a notícia de hoje, de que a campanha tinha chegado ao fim com resultado positivo”, afirmou Manuel Bairrão Oleiro, que durante anos foi responsável pelos museus públicos no Ministério da Cultura e actualmente é assessor para a área dos museus da EGEAC, empresa que gere os equipamentos culturais da Câmara Municipal de Lisboa.

“Foi muito meritório que o Museu de Arte Antiga se tenha lançado numa campanha deste tipo. Nunca tinha sido feito com esta dimensão e espero que abra a porta para novas iniciativas semelhantes.” Bairrão Oleiro surpreendeu-se com o elevado número das contribuições individuais, muitas vezes anónimas, destacando como ponto negativo “alguma falta de adesão de empresas e entidades com maior dimensão”.

A historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, que também já dirigiu o organismo público responsável pelos museus nacionais, diz que a sua reacção só podia ser de júbilo. “É um resultado que não era evidente. Embora o seu sucesso tenha sido sempre anunciado com uma imensa positividade – era uma campanha que não podia falhar –, o resultado manifesta o lugar peculiar que o Museu de Arte Antiga conseguiu ocupar, fruto da excepcional equipa que tem e também da pessoalização dessa equipa na figura do director.” Henriques da Silva diz que António Filipe Pimentel conseguiu descolar o museu do “triste ramerrame da Direcção-Geral do Património Cultural”, da constante alteração de equipas. “O museu tem estado numa linha contínua de afirmação e desenvolvimento.”

Depois, a historiadora de arte diz que esta campanha, em redor de uma pintura religiosa que não era muito fácil, “foi muito bem comunicada, quer pela televisão, quer sobretudo pelo jornal PÚBLICO, que foram aliados extraordinários”. Destaca também, “como muito bem jogada”, a festa de angariação realizada no Lux, em Lisboa, e a contribuição da Fundação Aga Khan.

Raquel Henriques da Silva recorda a sua posição inicial, em que pedia uma contribuição do Estado, para afirmar que eventualmente não tinha razão. “Pelos vistos foi desnecessário e fico muito contente por isso.” Sobretudo, acrescenta ainda, a campanha teve este resultado “extraordinário”: “Saibam muito ou saibam pouco, o nome de Sequeira ficou. Talvez também tenha permitido que as pessoas percebam que a qualidade pictórica está em todas as épocas e em todas as tipologias.”

Não é solução para as colecções

O crítico e comissário Delfim Sardo, que trabalha na área da arte contemporânea, diz que esta foi uma excelente operação conduzida pelo museu e pela sua direcção, “mas não pode configurar nenhum tipo de solução para o problema das colecções de arte em Portugal, porque implica à partida uma demissão do Estado”.

Sardo sublinha a criatividade da campanha e a capacidade de comunicação e mobilização do museu. “Além de ter conseguido a verba para a pintura, a campanha teve efeitos em termos da imagem pública do museu: [agora] pertence, de alguma maneira, à comunidade e esta tem de assumir a sua responsabilidade em relação ao museu.”

Delfim Sardo diz que nem todos têm a capacidade do MNAA e que mesmo o museu não vai poder voltar a fazer uma campanha semelhante tão cedo. “Não me parece que seja uma estratégia que se possa repetir”, acrescenta, identificando algumas das prioridades do Estado no que toca às colecções: “Além de uma política responsável de coleccionismo público, que passa por uma política de aquisições, é muito importante que o Estado pense o coleccionismo para lá da injecção de dinheiro. Há uma quantidade de situações legais em que é necessário mexer para podermos ter coleccionismo, como o direito sucessório ou a legislação do IVA.”

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