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Manuel Alegre recebe dos seus pares o prémio Vida Literária


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“Vou sempre trabalhando nuns poemas e estou a escrever também memórias” NUNO FERREIRA SANTOS

Direcção da Associação Portuguesa de Escritores escolheu por unanimidade o poeta e ficcionista que, em 1965, com Praça da Canção, “fez arder uma geração inteira”.

O prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE), no valor de 22.500 euros, foi atribuído esta quinta-feira ao poeta e ficcionista Manuel Alegre, consagrando um percurso literário de meio século, desde o mítico livro Praça da Canção (1965), que se tornaria um símbolo da oposição à ditadura, até aos poemas de Bairro Ocidental (2015) ou aos textos reunidos em Uma Outra Memória, que a D. Quixote lançou este mês.

Como é tradição neste prémio atribuído a cada dois anos – Alegre sucede à ficcionista Maria Velho da Costa, contemplada em 2013 –, a escolha é da responsabilidade da direcção da APE, presidida por José Manuel Mendes, que justificou esta distinção, decidida por unanimidade, com o “longo” e “muito premiado” percurso literário do autor, “reconhecido pelos leitores e pela crítica em termos que tornam inconfundível a sua presença de poeta, narrador, cronista e ensaísta” na “esfera cultural” do país.

“É um prémio significativo e que me honra muito, até porque me sinto muito bem acompanhado, tendo em conta as pessoas que o receberam antes de mim”, disse Manuel Alegre ao PÚBLICO, citando os exemplos de Miguel Torga, José Saramago ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Além destes autores, também José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Cesariny, Victor Aguiar e Silva, Maria Helena da Rocha Pereira, João Rui de Sousa e a já citada Maria Velho da Costa venceram este prémio de carreira.

O autor, que acaba de editar Uma Outra Memória, “textos sobre a escrita, sobre a vida, sobre os escritores, sobre Herberto, a Sophia, Cesariny, e também sobre figuras políticas”, diz estar sempre a trabalhar em alguma coisa. “Vou sempre trabalhando nuns poemas”, conta, “e estou a escrever também memórias”, um texto autobiográfico ainda sem título nem data de publicação. “Quando se tem uma vida como a minha, que não posso dizer que não tenha sido muito intensa e por vezes bastante tensa, com muitos episódios de natureza pessoal, e se mistura a literatura, a escrita… não é fácil”, conclui.

O histórico socialista e ex-candidato à Presidência da República, que fará 80 anos em  Maio, e cujo trajecto cívico e intelectual foi assinalado em 1999 com o Prémio Pessoa, é um dos autores portugueses contemporâneos mais lidos e traduzidos, e muitas das suas obras têm sido premiadas, como o livro de poemas Senhora das Tempestades (1998) ou o romance A Terceira Rosa, ambos de 1998, que venceram respectivamente o Grande Prémio de Poesia da APE e o Prémio Fernando Namora.

Mas o que torna o caso de Manuel Alegre verdadeiramente único na literatura portuguesa é o impacto que tiveram os seus dois livros iniciais – Praça da Canção (1965 e O Canto e as Armas (1967) –, que foram apreendidos pela Censura, mas circularam por todo o país, em exemplares salvos a tempo, mas sobretudo em cópias dactilografadas, ou mesmo manuscritas, e que eram recitados e cantados em manifestações, meetings estudantis e outras iniciativas de oposição ao regime.

Amplificados pela voz de Adriano Correia de Oliveira, antes de qualquer outra, mas também pelas de José Afonso, Manuel Freire ou Luís Cília, poemas como Trova de Vento que Passa e outros já andavam de mão em mão antes de Praça da Canção sair na colecção Cancioneiro Vértice, onde Fernando Assis Pacheco já publicara Cuidar dos Vivos.

“Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha geração”, diz de Praça da Canção, numa das suas crónicas, o romancista António Lobo Antunes, explicando que o livro se tornou “a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que vivíamos”. E acrescenta: “Não me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia. A ousadia com que fez arder uma geração inteira, e o incêndio que levantou sozinho”.

Na mesma crónica, cita um dos mais belos poemas do livro, Canção com Lágrimas e Sol, explicando que esses versos lhe vieram imediatamente à cabeça quando lhe morreu um camarada na tropa. “(…) Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa/ quem me dera em Maio. Depois morreste/ com Lisboa tão longe ó meu irmão de Maio/ que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro”, escrevia Manuel Alegre nesse poema.

Num texto escrito para o PÚBLICO a propósito da edição comemorativa dos 50 anos de Praça da Canção, José Jorge Letria diz que o livro “veio marcar a história cultural e política da resistência à ditadura em Portugal e influenciar o que viria a ser o processo de criação de uma canção política capaz de incorporar no seu temário grandes assuntos como a condenação da Guerra Colonial, a repressão, a emigração, o exílio e a tortura”.

Se é difícil ler hoje estes poemas ignorando a aura que se criou em torno deles, talvez se possa ainda assim arriscar o juízo de que o tom muitas vezes um tanto épico e grandiloquente da poesia de Alegre – que também espelha o seu ininterrupto diálogo com Camões – nunca funcionou tão bem e com tanta naturalidade como nos versos de resistência destes seus primeiros livros, ambos hoje com mais de uma dúzia de edições.

Na sua extensa bibliografia lírica, destacar-se-ão mais tarde títulos como Nova do Achamento (1979), o já referido Senhora das Tempestades, talvez o mais apreciado dos seus livros de poemas posteriores ao 25 de Abril, ou ainda Livro do Português Errante (2001).

Ficcionista relativamente tardio, estreou-se em 1989 com o romance Jornada de África e o livro de contos O Homem do País Azul, e publicou, entre vários outros, os romances Alma (1995), A Terceira Rosa (1998) e o recente Tudo É e Não É (2013), e ainda a novela Cão Como Nós, um invulgaríssimo caso de sucesso, com quase 30 edições publicadas.

Com Isabel Salema

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