P.A.M. – Património, Artes e Museus

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Monthly Archives: Março 2016

Museu de Arte Antiga com entrada livre até Abril

Para compensar o facto das obras de requalificação obrigarem ao encerramento do Piso 3, a entrada nas restantes áreas do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, será gratuita até ao dia 05 de Abril.

O Museu informa que as salas de Pintura e Escultura Portuguesas, Mobiliário Português, Ourivesaria e Joalharia, Cerâmica e Arte da Expansão estarão encerrados a partir de 15 de março, reabrindo ao público no dia 5 de abril.

Contudo, o Museu manterá abertos, no Piso 1, a Galeria de Pintura Europeia e as salas de Artes Decorativas Francesas, assim como todas as exposições temporárias patentes e a entrada nestas exposições será gratuita.
A célebre pintura “Painéis de São Vicente”, de Nuno Gonçalves, poderá ser vista na Sala 55, do Piso 1. De igual modo, se manterá em exposição a pintura “A Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira, no âmbito da campanha de pública que o MNAA está a promover para adquirir aquela obra. Também a loja e o restaurante irão permanecer abertos.
A única exposição que continua a exigir a aquisição de bilhete é a mostra “Coleção Masaveu. Grandes Mestres da Pintura Espanhola: Greco, Zurbarán, Goya, Sorolla”.

Manuel Alegre recebe dos seus pares o prémio Vida Literária

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“Vou sempre trabalhando nuns poemas e estou a escrever também memórias” NUNO FERREIRA SANTOS

Direcção da Associação Portuguesa de Escritores escolheu por unanimidade o poeta e ficcionista que, em 1965, com Praça da Canção, “fez arder uma geração inteira”.

O prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE), no valor de 22.500 euros, foi atribuído esta quinta-feira ao poeta e ficcionista Manuel Alegre, consagrando um percurso literário de meio século, desde o mítico livro Praça da Canção (1965), que se tornaria um símbolo da oposição à ditadura, até aos poemas de Bairro Ocidental (2015) ou aos textos reunidos em Uma Outra Memória, que a D. Quixote lançou este mês.

Como é tradição neste prémio atribuído a cada dois anos – Alegre sucede à ficcionista Maria Velho da Costa, contemplada em 2013 –, a escolha é da responsabilidade da direcção da APE, presidida por José Manuel Mendes, que justificou esta distinção, decidida por unanimidade, com o “longo” e “muito premiado” percurso literário do autor, “reconhecido pelos leitores e pela crítica em termos que tornam inconfundível a sua presença de poeta, narrador, cronista e ensaísta” na “esfera cultural” do país.

“É um prémio significativo e que me honra muito, até porque me sinto muito bem acompanhado, tendo em conta as pessoas que o receberam antes de mim”, disse Manuel Alegre ao PÚBLICO, citando os exemplos de Miguel Torga, José Saramago ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Além destes autores, também José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Cesariny, Victor Aguiar e Silva, Maria Helena da Rocha Pereira, João Rui de Sousa e a já citada Maria Velho da Costa venceram este prémio de carreira.

O autor, que acaba de editar Uma Outra Memória, “textos sobre a escrita, sobre a vida, sobre os escritores, sobre Herberto, a Sophia, Cesariny, e também sobre figuras políticas”, diz estar sempre a trabalhar em alguma coisa. “Vou sempre trabalhando nuns poemas”, conta, “e estou a escrever também memórias”, um texto autobiográfico ainda sem título nem data de publicação. “Quando se tem uma vida como a minha, que não posso dizer que não tenha sido muito intensa e por vezes bastante tensa, com muitos episódios de natureza pessoal, e se mistura a literatura, a escrita… não é fácil”, conclui.

O histórico socialista e ex-candidato à Presidência da República, que fará 80 anos em  Maio, e cujo trajecto cívico e intelectual foi assinalado em 1999 com o Prémio Pessoa, é um dos autores portugueses contemporâneos mais lidos e traduzidos, e muitas das suas obras têm sido premiadas, como o livro de poemas Senhora das Tempestades (1998) ou o romance A Terceira Rosa, ambos de 1998, que venceram respectivamente o Grande Prémio de Poesia da APE e o Prémio Fernando Namora.

Mas o que torna o caso de Manuel Alegre verdadeiramente único na literatura portuguesa é o impacto que tiveram os seus dois livros iniciais – Praça da Canção (1965 e O Canto e as Armas (1967) –, que foram apreendidos pela Censura, mas circularam por todo o país, em exemplares salvos a tempo, mas sobretudo em cópias dactilografadas, ou mesmo manuscritas, e que eram recitados e cantados em manifestações, meetings estudantis e outras iniciativas de oposição ao regime.

Amplificados pela voz de Adriano Correia de Oliveira, antes de qualquer outra, mas também pelas de José Afonso, Manuel Freire ou Luís Cília, poemas como Trova de Vento que Passa e outros já andavam de mão em mão antes de Praça da Canção sair na colecção Cancioneiro Vértice, onde Fernando Assis Pacheco já publicara Cuidar dos Vivos.

“Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha geração”, diz de Praça da Canção, numa das suas crónicas, o romancista António Lobo Antunes, explicando que o livro se tornou “a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que vivíamos”. E acrescenta: “Não me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia. A ousadia com que fez arder uma geração inteira, e o incêndio que levantou sozinho”.

Na mesma crónica, cita um dos mais belos poemas do livro, Canção com Lágrimas e Sol, explicando que esses versos lhe vieram imediatamente à cabeça quando lhe morreu um camarada na tropa. “(…) Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa/ quem me dera em Maio. Depois morreste/ com Lisboa tão longe ó meu irmão de Maio/ que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro”, escrevia Manuel Alegre nesse poema.

Num texto escrito para o PÚBLICO a propósito da edição comemorativa dos 50 anos de Praça da Canção, José Jorge Letria diz que o livro “veio marcar a história cultural e política da resistência à ditadura em Portugal e influenciar o que viria a ser o processo de criação de uma canção política capaz de incorporar no seu temário grandes assuntos como a condenação da Guerra Colonial, a repressão, a emigração, o exílio e a tortura”.

Se é difícil ler hoje estes poemas ignorando a aura que se criou em torno deles, talvez se possa ainda assim arriscar o juízo de que o tom muitas vezes um tanto épico e grandiloquente da poesia de Alegre – que também espelha o seu ininterrupto diálogo com Camões – nunca funcionou tão bem e com tanta naturalidade como nos versos de resistência destes seus primeiros livros, ambos hoje com mais de uma dúzia de edições.

Na sua extensa bibliografia lírica, destacar-se-ão mais tarde títulos como Nova do Achamento (1979), o já referido Senhora das Tempestades, talvez o mais apreciado dos seus livros de poemas posteriores ao 25 de Abril, ou ainda Livro do Português Errante (2001).

Ficcionista relativamente tardio, estreou-se em 1989 com o romance Jornada de África e o livro de contos O Homem do País Azul, e publicou, entre vários outros, os romances Alma (1995), A Terceira Rosa (1998) e o recente Tudo É e Não É (2013), e ainda a novela Cão Como Nós, um invulgaríssimo caso de sucesso, com quase 30 edições publicadas.

Com Isabel Salema

Investigadores cada vez mais certos de que Nefertiti está no túmulo de Tutankhamon

© Mohamed Abd El Ghany / Reuter
Túmulo de Tutankhamon no Vale dos Reis em Luxor, Egipto.

Foram encontradas duas salas ocultas no túmulo de Tutankhamon, no Egipto. Numa dessas salas, os investigadores acreditam estar Nefertiti, a antiga rainha egípcia cujos restos mortais nunca foram encontrados. O Governo egípcio fala em descoberta do século caso se confirme. A antiga rainha desapareceu de forma misteriosa após a morte do marido Amenófis IV.

 

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Navio português incluído na armada de Vasco da Gama descoberto em Omã

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foto Blue Water Recoveries

 

Navio será a mais antiga embarcação dos Descobrimentos Portugueses encontrado e cientificamente investigado por arqueólogos

O Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciou hoje a descoberta de um navio português naufragado numa ilha remota de Omã em 1503, que fazia a carreira da Índia e estava incluído na armada de Vasco da Gama.

O navio é, de acordo com aquela entidade, a mais antiga embarcação dos Descobrimentos Portugueses encontrado e cientificamente investigado por arqueólogos.

foto Blue Water Recoveries

Em comunicado, o ministério salientou que o navio português, que estava incluído numa das armadas de Vasco da Gama com destino à Índia naufragou em 1503 durante uma tempestade ao largo da ilha Al Hallaniyah, na região Dhofar, de Omã.

O Ministério do Património e da Cultura (MPC) de Omã informou que o local do naufrágio foi inicialmente descoberto pela empresa britânica Blue Water Recoveries Ltd. (BWR) em 1998, no 500º aniversário da descoberta de Vasco da Gama do caminho marítimo para a Índia.

Contudo, o ministério só deu início ao levantamento arqueológico e à escavação em 2013, tendo sido desde então realizadas mais duas escavações em 2014 e 2015, com a recuperação de mais de 2.800 artefactos.

Os principais artefactos, que permitiram identificar o local do naufrágio como sendo a nau Esmeralda, de Vicente Sodré, incluem um disco importante de liga de cobre, com o brasão real português e uma esfera armilar e um emblema pessoal de D. Manuel I.

A mesma fonte indicou que foram também encontrados um sino de bronze, com uma inscrição que sugere que o navio data de 1498, cruzados de ouro, cunhados em Lisboa entre 1495 e 1501 e um moeda de prata rara, chamada Índio, que D. Manuel I terá mandado fazer especificamente para o comércio com a Índia.

“A extrema raridade do Índio (só se conhece um outro exemplar no mundo inteiro) é tal, que possui o estatuto lendário da moeda “perdida” ou “fantasma” de D. Manuel I”, adiantou o MPC de Omã.

Na nota, é também referido que “o projeto foi gerido conjuntamente por este ministério de Omã e por David L. Mearns da BWR, tendo-se respeitado rigorosamente a Convenção da UNESCO para a Proteção do Património Cultural Subaquático de 2001”.

foto Blue Water Recoveries

 

Curso Livre de Introdução à Iconografia – “O QUE NOS CONTAM AS IMAGENS DO PALÁCIO FRONTEIRA? INICIAÇÃO À ICONOGRAFIA”

 

Curso Livre de Introdução à Iconografia – “O QUE NOS CONTAM AS IMAGENS DO PALÁCIO FRONTEIRA? INICIAÇÃO À ICONOGRAFIA”
Coordenação de: ANA PAULA REBELO CORREIA

29 de Março, 5, 12 e 19 Abril 2016
(Duração: 12h – das 19h às 22h30 com 30 minutos de intervalo) – Palácio Fronteira

Informações e inscrições limitadas (até ao dia 16 de Março) – fcfa-cultura@fronteira-alorna.pt / 217 784 599.

O Curso Livre de Introdução à Iconografia – “O que nos contam as imagens do Palácio Fronteira?”, destina-se a todos os que tenham interesse e curiosidade pela imagem e seu significado.

O curso tem como objetivo tornar acessível a leitura das imagens mitológicas, alegóricas, cristãs, e iniciar os participantes nos métodos e utensílios de pesquisa iconográfica necessários à identificação, descodificação e compreensão de figuras e programas narrativos.
A decoração exterior e interior do palácio oferece-nos um universo iconográfico que vemos hoje como um conjunto decorativo de forte impacto visual. Em seu tempo, todas estas imagens eram legíveis, familiares, contavam histórias e fábulas cuja memória e conhecimento se foi apagando. Quem são as figuras do Terraço das Artes? Porquê uma figura da poesia? Quem é a figura humana com cabeça de veado e a figura feminina com um pássaro na cabeça?…

Com base no vasto imaginário do Palácio, as aulas são dadas a partir da observação e estudo de imagens e programas narrativos de várias épocas e em suportes e técnicas diversos: pintura, escultura, tapeçaria, azulejo, estuque, entre outros, dando aos participantes a possibilidade de reconhecer e analisar as principais convenções que ao longo dos séculos caracterizaram determinados temas, religiosos ou profanos.

A iconografia é um tema com uma abrangência muito vasta e o objetivo desta formação é sobretudo despertar o interesse e a curiosidade por esta área de estudo.

Programa

Aula 1 – 29 de Março
O que é Iconografia? / Diferença entre Iconografia e Iconologia. / Imagem e mensagem. Leitura iconográfica e dimensão estética. / Contextos, fontes gráficas e literárias.

Aula 2 – 5 de Abril
Alegorias e Personificações nos azulejos e estuques do Palácio. / Cesare Ripa e a Iconologia / As Artes Liberais. Reflexão sobre a relação entre texto e imagem na análise iconográfica.

Aula 3 – 12 de Abril
Mitologia greco-romana: Reflexos nas Artes Decorativas. / Pinturas, estuques e azulejos do Palácio. / A importância da gravura na divulgação das imagens.

Aula 4 – 19 de Abril
Introdução à Iconografia Cristã. / Temas da Infância de Cristo. Origem, génese, fontes gráficas e literárias, evolução do tema.

Apoio: Associação dos Os Amigos da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna..

Local: Palácio Fronteira, Largo São Domingos de Benfica nº 1 – 1500-554 Lisboa

A Judaica – Mostra de Cinema e Cultura estende-se a Cascais e Belmonte

 

A Judaica - Mostra de Cinema e Cultura2

O evento dedicado à temática judaica apresenta uma série de filmes em estreia no nosso país, assim como exposições e conferências

A Judaica – Mostra de Cinema e Cultura regressa, em 4.ª edição, a 16 de março, e decorrerá, além de Lisboa e Belmonte, também em Cascais e Castelo de Vide, com uma programação para cada localidade, foi hoje anunciado.

De acordo com a organização, que anunciou as principais linhas da programação, numa conferência de imprensa realizada em Lisboa, além dos filmes, serão organizadas visitas às judiarias de Lisboa, Belmonte e Castelo de Vide.

Esta edição abre a 16 de março, em Lisboa, com a antestreia nacional do filme “Uma história de amor e trevas”, de Natalie Portman, atriz que se estreia na realização com esta adaptação cinematográfica da autobiografia de Amos Oz.

A programação, que se estende até 08 de maio, incluirá também concertos, vendas temáticas e lançamento de livros, conferências e exposições.

Com ligação ao papel de portugueses na 2.ª Guerra Mundial, a mostra irá exibir o filme “O cônsul desobediente — exílio em Portugal”, um documentário com produção austríaca da realizadora Uli Jürgens, no qual os descendentes de refugiados contam histórias da fuga, até Lisboa, daqueles que foram salvos por Aristides de Sousa Mendes.

“Filmes proibidos”, documentário de Felix Moeller, filho da cineasta Margarethe von Trotta, é outra longa-metragem que estará em destaque na programação, dedicado aos filmes de propaganda nazi, cuja exibição pública continua a ser proibida na Alemanha.

Natalie Portman estreia-se na realização com o filme “Uma história de amor e trevas”|  RAY MENDELSON

Ainda sobre a temática nazi, será exibido “Todos os rostos têm um nome”, um documentário em que o realizador Magnus Gertten descobre e entrevista sobreviventes do Holocausto, que aparecem numa filmagem de 1945, no porto de Malmö, na Suécia.

Num momento em que a Europa enfrenta uma crise de refugiados, a organização da Judaica marcou um debate, a 18 de março, no qual Gertten participará com Pedro Calado, alto-comissário para as Migrações, e Rui Marques, líder da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR).

Será ainda exibido “Claude Lanzmann: Espectros da Shoah”, de Adam Benzine, nomeado para os Óscares na categoria de Melhor Curta-Metragem Documental, obra que consiste numa espécie de ‘making of’ de “Shoah”, um filme com mais de nove horas de duração, que é unanimemente considerado a obra-prima do cinema sobre o Holocausto.

Em Lisboa, Castelo de Vide e em Belmonte será exibido “Jerusalém Oriental/Jerusalém Ocidental”, um documentário assinado por Henrique Cymerman, correspondente da SIC no Médio Oriente, que acompanhou a gravação de um disco do músico israelita David Broza, e que estará presente para uma sessão de perguntas e respostas.

“Febre ao Amanhecer”, estreia absoluta do filme e lançamento do livro com o mesmo nome, em que Péter Gárdos, realizador e autor, narra a história de Lili e Miklós, os seus pais, será exibido em Lisboa, a 20 de março.

Os pais de Gárdos conheceram-se por carta, em 1945, quando ambos eram refugiados húngaros na Suécia.

A 4.ª edição da Judaica — Mostra de Cinema e Cultura vai decorrer em Lisboa, de 16 a 20 de março, em Cascais, de 08 a 10 de abril, em Belmonte, de 14 a 17 de abril, e em Castelo de Vide, de 05 a 08 de maio.

CONSULTE O PROGRAMA COMPLETO AQUI

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Prémio Literário Cidade de Almada. Candidaturas até 31 de Março

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Prémio Lietário Cidade de Almada

A Câmara de Almada promove a 28.ª edição do Prémio Literário Cidade de Almada, cujas candidaturas decorrem até 31 de Março. O género a concurso é o romance.

A Câmara Municipal de Almada promove a 28.ª edição do Prémio Literário Cidade de Almada, cujas candidaturas decorrem até 31 de Março. Este ano o género literário a concurso é o romance.

O concurso, cujo prémio para o vencedor é de 5.000 euros, é destinado a autores portugueses que queiram submeter a concurso obras originais, inéditas e em língua portuguesa.

Em 2015 estiveram em concurso 114 obras literárias, tendo sido vencedor o escritor José Jorge Letria com a obra É Tudo Uma Questão de Tempo, obra que reúne 50 poemas originais.

O Prémio Literário Cidade de Almada, promovido pelo Município desde 1989, tem como objectivo incentivar e promover a criatividade literária e o gosto pela escrita.

Prémio Eduardo Lourenço 2016

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Prémio Eduardo Lourenço 2016

Encontram-se abertas as candidaturas à 12ª edição do Prémio Eduardo Lourenço, galardão instituído pelo Centro de Estudos Ibéricos destinado a premiar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas.

O Prémio, no montante de 7.500,00€ (sete mil e quinhentos euros), será atribuído por um júri constituído pelos membros da Direção do Centro de Estudos Ibéricos (Reitor da Universidade de Coimbra, Reitor da Universidade de Salamanca e Presidente da Câmara Municipal da Guarda) e por mais oito personalidades sendo, no presente ano, presidido pelo Reitor da Universidade de Salamanca.

Personalidades de relevo de Portugal e Espanha já foram galardoadas nas anteriores edições: Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática de Cultura Greco-Latina (2004), Agustín Remesal, Jornalista (2006), Maria João Pires, Pianista (2007), Ángel Campos Pámpano, Poeta (2008), Jorge Figueiredo Dias, Professor Catedrático de Direito Penal (2009) e César António Molina, Escritor (2010), Mia Couto, Escritor (2011), José María Martín Patino, Teólogo (2012) e Jerónimo Pizarro, Professor e Investigador (2013), Antonio Sáez Delgado Professor e Investigador (2014) e Agustina Bessa Luís, Escritora (2015)

Qualquer instituição ou pessoa pode enviar propostas de candidatura até 11 de abril de 2016 para o Centro de Estudos Ibéricos. www.cei.pt.

> Prémio Eduardo Lourenço

> Regulamento – PT

> Reglamento – ES

 

Bonecas de folha de milho dos Açores tornaram-se peças de colecção

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Fátima Pacheco faz este produto artesanal na casa de família

 

“Barbies” dos Açores feitas em folha de milho tornaram-se peças de colecção

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Pelos caminhos da Biblioteca Nacional

Pauta em restauro

Via / BEATRIZ DIAS COELHO

29 de Fevereiro: 220 anos da Biblioteca Nacional de Portugal. Alvará de 29 de Fevereiro de 1796, que cria a Real Biblioteca Pública da Corte.

Versão impressa na BND: http://purl.pt/303

Passaram 220 anos desde que foi criada, por alvará régio, a maior biblioteca do país. Viagem por 75 quilómetros de prateleiras, 66 mil m2 de edifício, 4,7 milhões de documentos.

Estamos numa sala com 600 m2. Tem duas portas corta-fogo de três toneladas, é anti-sísmica e anti-incêndio — aqui, o simples acto de acender um isqueiro é impossível, uma vez que o ar não é combustível. Há várias estantes: algumas estão vazias, ainda à espera de serem preenchidas. Outras, guardam relíquias que poucos têm oportunidade de ver. Como uma colecção de documentos impressos até 1500 e os espólios de Sophia de Mello Breyner Andresen,Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Almeida Garrett. E de muitas outras figuras da cultura portuguesa. Preciosidades que estão guardadas em pequenas caixas de cartão, devidamente identificadas com o número do espólio a que pertencem. Qualquer um as poderia abrir, na verdade. Mas antes teria de conseguir entrar na cave da torre de depósitos, onde funciona a casa-forte daBiblioteca Nacional de Portugal (BNP), a maior biblioteca do país. Nesta casa-forte, que é a zona mais segura dentro da BNP, não estão necessariamente os documentos mais antigos, mas aqueles que têm mais valor, os mais raros, os mais importantes. “É como o cofre de um banco”, diz-nos a directora, Maria Inês Cordeiro. E visitá-la é um privilégio — “entre os técnicos da biblioteca ninguém entra sozinho e não entra ninguém que seja de fora”. Há excepções, claro: os representantes de Estado. E os técnicos da manutenção.

Manuscrito de Sophia de Mello Breyner Andresen: “A Menina do Mar”

Nunca, nunca sozinhos.O privilégio justifica-se — afinal, estamos aqui porque a BNP faz 220 anos. E há, aliás, mais para ver: como se visitar a casa-forte não fosse já suficiente, ao centro da sala, numa comprida mesa rectangular, espera-nos uma pequena amostra do tesouro. Dispostos por ordem cronológica, estão dezasseis documentos cujo peso na História e na Cultura portuguesas é inegável. “A selecção foi feita por Margarida Pinto, responsável dos Impressos, Ana Cristina Santana, responsável dos Manuscritos, e Fátima Lopes, responsável dos Espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea”, informa-nos a directora da BNP. E é então que vemos, entre os documentos — uns, mais do que outros, com um admirável estado de conservação — o mais antigo livro da BNP, que remonta ao século XII; um dos 50 exemplares existentes no mundo da Bíblia de Gutenberg; uma carta de Vasco da Gama; a primeira edição d’ Os Lusíadas; a carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro a explicar a origem dos heterónimos, escrita em Janeiro de 1935.

Nos bastidores da biblioteca

O acervo da BNP integra actualmente cerca de 4,7 milhões de documentos. Com algumas doações e aquisições, o número cresce principalmente graças ao depósito legal, uma lei que remonta a 1805 e que obriga a que sejam entregues à BNP onze exemplares de todas as obras impressas ou editadas em Portugal. Nove exemplares são depois enviados para bibliotecas um pouco por todo o país, incluíndo Açores e Madeira, e para a Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, no Brasil. Os dois restantes integram o acervo da BNP. É esse o percurso que Maria Inês Cordeiro desvenda ao PÚBLICO: a viagem que estas obras fazem, nos bastidores da biblioteca, até serem entregues aos leitores.

Ao chegarem — em paletes coloridas, com diferentes tamanhos, vindas directamente das tipografias —, as obras com destino às outras bibliotecas são empacotadas em caixotes que, uns em cima dos outros, ocupam os dois lados de um corredor largo. Nuns lê-se “Madeira”, noutros “Rio de Janeiro”, mas o critério é igual para todos: “antigamente, era a BNP que enviava todos estes livros para as várias bibliotecas, mas agora isso é insustentável e cada instituição paga o transporte dos seus livros, incluindo o Rio de Janeiro”, assegura Maria Inês Cordeiro, que dirige a BNP desde 2011. A biblioteca recebe mensalmente cerca de 40 mil livros através do depósito legal, “e passa cerca de um mês entre a chegada, a sua distribuição e a catalogação”, conclui a directora.

Impõe-se um pequeno desvio ao trajecto principal, informa-nos Maria Inês Cordeiro, com passos apressados: “Vamos ao sector de conservação e restauro”. Conhecemos então o sr. Gonçalves, que já não vai para novo e é o único encadernador a trabalhar na biblioteca — um sintoma da escassez de funcionários de que os utilizadores da BNP actualmente se queixam. Numa parede estão pendurados vários rolos de tecido colorido: “São usados para as lombadas”, explica a directora. Aqui restauram-se “tanto manuscritos como obras impressas, e não só livros, mas todo o tipo de documentos — mapas, desenhos, pergaminhos…”. A cada documento é atribuída uma ficha, na qual se apontam “todas as suas características, doenças e intervenções que vai sofrer” e se incluem algumas fotografias.

 

Carta que Fernando Pessoa escreveu em 1935 a Adolfo Casais Monteiro a explicar a origem dos heterónimos

Mais à frente, já noutra sala, ficamos a saber que os documentos também são lavados, em banheiras próprias, com chuveiro. Maria Inês Cordeiro justifica: “para serem restaurados, a maior parte dos documentos são primeiro desmanchados, lavados aqui com uma água controlada, e depois secam naturalmente” em secadores próprios que fazem lembrar os vulgares estendais de alumínio. Quanto ao restauro, há vários processos para o fazer, e a directora da BNP mostra-nos um documento restaurado através de reintegração mecânica, um procedimento que recupera documentos “rotos, bichados ou com falhas”.

Feito o desvio, estamos de volta ao trajecto principal e passamos à zona de catalogação. Dispostas, aos pares, em carros de livros, as obras aguardam a sua vez de serem “introduzidas nas bases de dados”. São, depois, classificadas e voltam novamente para os carros de livros, “prontas para seguirem para a torre de depósitos”. Essa é justamente a paragem seguinte; mas antes voltamos à área aberta ao público e visitamos a sala de referência geral, onde os leitores pesquisam e requisitam as obras que querem consultar, e passamos pela mais emblemática sala de leitura da casa — a sala de leitura geral, conhecida pela enorme tapeçaria feita propositadamente por Guilherme Camarinha para decorar a parede do fundo e alusiva à Leitura Nova, uma colecção de cópias de importantes documentos mandada fazer por D. Manuel I e iniciada em 1504. Percebemos, desgostosos, que está por estes dias encerrada “para substituição do sistema de iluminação”, justifica Maria Inês Cordeiro. Conhecemos a sala de leitura temporária, onde filas e filas de secretárias acolhem leitores concentrados, e entramos no elevador que nos leva à icónica torre de depósitos, ampliada entre 2008 e 2012 e que guarda todo o acervo da biblioteca em 10 andares.

Na sala de consulta

Luís Sá, responsável pela sala de leitura e pela torre de depósitos, junta-se a nós a partir daqui. Subimos até ao sétimo andar — “vamos ao depósito de ciências e artes”, informa-nos. “O depósito está organizado por grandes temas”, acrescenta a directora. As portas abrem-se e ouvimos o som incomodativo de uma campainha intermitente, uma medida de segurança accionada automaticamente à entrada e à saída de pessoas em cada piso. Chegamos a um corredor de que quase não se vê o final — tem 133 metros de comprimento por 15 metros de largura —, ladeado por filas e filas de prateleiras repletas de obras e conhecidas como “comboios”, devidamente identificadas com placas que, entre outros dados, indicam o tema e o número do comboio. Para aproveitar o máximo de espaço possível, as obras estão organizadas por três formatos: “livros de bolso, livros com formato até A4 e A4 ou superior”, explica Luís Sá, que acrescenta que outro dos critérios de organização é a data de publicação.

Enquanto andamos pelo interminável corredor, Maria Inês Cordeiro fala sobre as condições de conservação: “a temperatura está normalmente entre 19.º e 22.º e a humidade relativa deve estar entre os 50% e os 55%”, diz, explicando que o tratamento do ar é feito por várias máquinas implementadas no último piso da torre e na cave. A incidência de luz solar é controlada pelas janelas — que são pequenos rectângulos, como convém. Mas a conservação passa também por armadilhar o espaço para combater eventuais habitantes indesejáveis: “colocamos armadilhas com um comprimido que atrai todo o tipo de insectos”. A segurança é assegurada por um sistema anti-intrusão e anti-incêndio e, quanto à limpeza do pó, “não é como lá em casa, não é possível andar sempre a limpar as prateleiras”.

Original de “Pedra Filosofal”, poema de Rómulo de Carvalho reconhecido do grande público com o pseudónimo António Gedeão

Estamos no fim do percurso: é a partir de uma sala com pequenos elevadores, que existem em todos os pisos da torre, que os livros — e todos os outros documentos — são enviados lá para baixo, para os leitores. “O talão do pedido do leitor é impresso cá em cima e depois os técnicos colocam-nos nestes elevadores próprios”, indica Maria Inês Cordeiro. Nós voltamos ao elevador e deixamos os livros para trás.

Um pouco de História

Hoje, a BNP é um mundo, já se viu. Mas muito aconteceu antes de ficar assim. Nasceu a 29 de Fevereiro de 1796, sob o nome de Real Biblioteca Pública da Corte. Em alvará régio, D. Maria I determinava: “Eu a Rainha faço saber aos que este Alvará virem: que sendo um dos objectos, que ocupam a Minha Real consideração, o cuidado de promover eficazmente os progressos da Literatura Portuguesa; e conhecendo quanto será útil, e vantajoso para se conseguir este fim, o estabelecimento de uma Livraria Pública, […] onde se achem […] os Livros mais precisos pela sua raridade, […] que constituam um riquíssimo depósito, não só de todos os conhecimentos humanos, mas também dos meios mais próprios para conduzir os homens a conseguirem a virtuosa sabedoria, […] ordeno que na Minha Corte, e cidade de Lisboa se erija, […] a Real Biblioteca Pública da Corte.”

Mas a História da BNP começa anos antes. “A BNP é o resultado do pensamento iluminista de algumas figuras muito importantes na segunda metade do século XVIII”, resume a directora. Tudo começou por volta de 1771: Imbuído do espírito iluminista da valorização da razão, Frei Manuel do Cenáculo, que ficaria para a posteridade como uma das personalidades mais relevantes da Cultura portuguesa setecentista, propôs ao rei D. José I a criação de uma biblioteca pública. E assim, em 1775, D. José I decretava que a ala ocidental do Terreiro do Paço acolheria o projecto. Mas só duas décadas depois é que os planos se concretizariam — e o alvará de D. Maria I viria finalmente a fundar a Real Biblioteca Pública da Corte.

No exterior do edifício da Biblioteca Nacional

 Do acervo da Real Biblioteca, gerido pelo bibliotecário-mor António Ribeiro dos Santos, faziam parte as obras da Biblioteca da Real Mesa Censória que, até à sua extinção em 1794, fiscalizava as obras a publicar. Entre doações particulares e aquisições, a Real Biblioteca Pública da Corte foi crescendo e, em 1834, depois da guerra civil contra os absolutistas, os liberais tomaram o poder e a Real Biblioteca passou a chamar-se Biblioteca Nacional de Lisboa. Nesse mesmo ano, a extinção das ordens religiosas viria a contribuir para o aumento do seu acervo: “vieram carroças e carroças cheias de livros de mosteiros e conventos para Lisboa”, conta Maria Inês Cordeiro. O Terreiro do Paço tornou-se pequeno para tão vasto acervo e a Biblioteca acabaria por se mudar para o Convento de S. Francisco, no Chiado, donde saíria apenas em 1969, para ocupar o imponente edifício do Campo Grande projectado por Porfírio Pardal Monteiro propositadamente para a acolher.

Arquivos da Biblioteca Nacional, criada por alvará régio há 220 anos

 

A BNP hoje: utilizadores, problemas e o desafio do digital

Dos 66 mil m2 de área total do edíficio, 35 mil m2 estão ocupados pelos 75 quilómetros de prateleiras. Mas a quem serve um património tão extenso? “Os principais utilizadores e exploradores do acervo da BNP pertencem à comunidade académica”, esclarece Maria Inês Cordeiro, que acrescenta que entre os cerca de 45 mil leitores que visitam anualmente a biblioteca — um número que se tem mantido estável nos últimos anos, diz —, quem procura a BNP não são apenas pessoas da Literatura, da História ou das Ciências, mas de muitas outras áreas.

Prova disso é o realizador e encenador Frederico Corado: “As minhas idas à biblioteca são frequentes, por motivos profissionais, quando faço pesquisa para novos trabalhos, em particular no que diz respeito ao teatro”, conta ao PÚBLICO. Corado dá o exemplo de uma exposição que organizou no final de 2015, sobre teatro no Cartaxo, e para a qual se socorreu da BNP: “Infelizmente, o Cartaxo não tem um arquivo muito completo, e tive de ir à BNP sobretudo para consultar jornais antigos. Em relação a alguns jornais, foi-me dito que não podia consultá-los porque estavam muito danificados, mas ofereceram-me alternativas: podia consultá-los digitalmente, se pagasse a sua digitalização”.

Um dos problemas mais recorrentes que os utilizadores da BNP identificam ao PÚBLICO é precisamente o estado de conservação das publicações periódicas. “É uma pena, porque vamos acabar por perder a memória do que era a actividade jornalística nos séculos XIX e XX. O papel é muito frágil, desfaz-se e a consulta deixa de ser possível”, lamenta Paulo Silveira e Sousa, investigador de História e utilizador frequente da biblioteca, numa conversa conjunta na cafetaria com presenças igualmente assíduas nas salas de leitura — o historiador Diogo Ramada Curto [colaborador do PÚBLICO] e João Pedro George, autor de obras como Marquesa de Paiva (2015) e O Que é um Escritor Maldito? (2013).

Os três investigadores partilham diariamente a sala de leitura geral e concordam que há actualmente dois problemas de base que condicionam o seu trabalho. Em primeiro lugar, “faz falta a formação de uma nova geração de profissionais dentro da biblioteca, que beneficie da passagem de testemunho do saber acumulado das pessoas mais velhas, que se vão reformando”, diz Diogo Ramada Curto. A análise dos relatórios de actividade da biblioteca mostra que, de facto, o panorama não é animador: enquanto que em 31 de Dezembro de 2010 “estavam ao serviço 231 trabalhadores”, na mesma data, em 2014 — de acordo com o mais recente relatório disponível —, “estavam ao serviço 195 trabalhadores”.

Em segundo lugar, continua Diogo Ramada Curto, “uma biblioteca nacional não pode viver apenas do acervo que herdou do passado, tem de comprar obras”, considera, preocupado com a falta de recursos para a aquisição de obras. João Pedro George vai mais longe e diz mesmo que esta é uma realidade que “atrasa imenso o conhecimento do país, porque os investigadores não têm acesso a determinados documentos, que acabam nas mãos de privados”. Também aqui os dados dos relatórios de actividade são reveladores: em 2010 foram adquiridas “105 obras de bibliografia corrente”, lê-se no relatório, e 1873 “no âmbito de leilões, espólios e raridades”. Já em 2014, “não foram adquiridas obras de bibliografia corrente” e foi “suspensa a assinatura de publicações periódicas estrangeiras”, tendo sido adquiridas 53 obras “no âmbito de leilões, espólios e raridades”.

Associada ao acervo da BNP está a memória colectiva do país, lembra Diogo Ramada Curto: “essa memória colectiva relaciona-se com a investigação que fazemos, é através da investigação que pensamos a memória colectiva, e por isso a biblioteca tem de ter condições para que possamos investigar, não basta ter o acervo”. Silveira e Sousa, Ramada Curto e George reconhecem, no entanto, que a falta de dinheiro é um problema transversal às instituições culturais em Portugal e elogiam a competência da equipa da biblioteca dadas as actuais circunstâncias.

Luís Ribeiro, um historiador de arte que trabalha em projectos relacionados com manuscritos medievais, não hesita: “a actual direcção é extremamente receptiva a colaborar com investigadores”, diz. O verdadeiro problema é o horário — é limitado e limitativo. “Sei que há condicionantes orçamentais e de recursos humanos, mas o horário devia ser mais alargado e mais noturno. Para quem está a fazer investigação em part-time, o fim-de-semana é ideal, por isso a biblioteca devia estar aberta mais horas ao fim-de-semana e não fechar ao domingo”. Mas Maria Inês Cordeiro diz que o alargamento do horário não é, “com os recursos que a biblioteca tem” hoje, uma hipótese “viável”: “a média de pessoas na sala de leitura geral a partir das 18h30 — apenas 10 ou 15 pessoas — não o justificaria”.

Maria Inês Cordeiro olha para o processo de digitalização dos documentos e a expansão da Biblioteca Nacional Digital, criada em 2002, como desafios: “A partir do momento em que a Internet e os meios tecnológicos se vulgarizaram, a BNP mudou radicalmente a forma como fornece os vários serviços e como dá acesso àqueles documentos [mais antigos e valiosos] a que só muito poucas pessoas antes podiam aceder”, explica. É a esses documentos que é dada prioridade na “difusão através da digitalização”, continua a directora da BNP, que destaca as vantagens da Biblioteca Nacional Digital: “qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora e para qualquer efeito, não só tem acesso aos documentos como pode fazer o download e reutilizar. Por sua vez, a BNP, enquanto gestora desses bens culturais, consegue garantir o cumprimento da missão de os preservar a longo prazo”.

Apesar da evolução natural para o digital, o grande objectivo mantém-se: “Queremos preservar para o futuro, mas ao mesmo tempo ter relevância para a sociedade viva e que quer hoje utilizar a biblioteca. Temos de ter um equilíbrio entre as duas coisas”. A actuação da instituição, no entanto, mudou: “Até há 20 ou 30 anos, a biblioteca era reactiva — estava aqui, guardava o acervo para quem quisesse utilizá-lo —, e hoje é proactiva — temos de o ser para chegarmos à sociedade”. Por isso tem vindo a promover, nos últimos anos, exposições, mostras, colóquios, congressos, publicações e edições. “Anualmente, fazemos entre 60 e 70 eventos e lançamos entre 10 e 15 edições”, refere.

Quinze anos depois do seu lançamento, a Biblioteca Nacional Digital disponibiliza actualmente 27 mil documentos para consulta online, entre os quais o único exemplar conhecido de História de mui nobre Vespasiano (1496), sobre o imperador romano, e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, uma cópia do século XVI do maior cancioneiro de poesia trovadoresca em português. Frederico Corado compreende a morosidade e as dificuldades inerentes ao projecto, mas lamenta que seja apenas possível aceder a um número tão reduzido de documentos, tal como Dora Santos Silva, investigadora do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que consulta frequentemente o portal. “Gosto de ir vendo as obras que vão sendo disponibilizadas”, explica, apesar de considerar que “o site não é user friendly”. “Não há, por exemplo, a organização em temas, que tornaria a consulta e a descoberta mais fáceis. A biblioteca permite a descoberta, mas a descoberta também deve ser um pouco facilitada”.

“A exigência do público é imensa e não perdoa nada”, concorda a directora. “Se não tivermos a última facilidade para o telemóvel ou para o tablet, já ficamos para trás; se não tivermos o acervo com uma boa visibilidade e recuperabilidade no Google, já existimos menos”, admite. Destaca, por outro lado, os recursos que a criação da Biblioteca Nacional Digital exigiu — e continua a exigir — e que envolvem “a transformação das infraestruturas técnicas, a necessidade de os profissionais adquirirem novas competências e a constante actualização dos meios de fornecimento do serviço do ponto de vista tecnológico”. “É uma realidade tão mais complexa quanto mais simples parece a sua utilização e tão ou mais dispendiosa do que a biblioteca das prateleiras”, advoga. Mas não tem dúvidas de que este é o caminho do futuro: “em 2013, apercebemo-nos de que o volume de tráfego na Biblioteca Nacional Digital é tal que pode corresponder, num ano, a vinte anos do volume de leitura nas salas de leitura aqui na BNP”. E conclui: “isso é o que as pessoas querem, é isso que nos convém”.

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