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Petição por obras no Liceu Camões chega ao Parlamento


Histórica escola de Lisboa está há anos à espera de obras que o Laboratório Nacional de Engenharia Civil considera urgentes. Ministério da Educação continua sem dar respostas

Entregue esta tarde ao vice-presidente da Assembleia da República José Manuel Pureza uma petição subscrita por 4251 cidadãos, que apelam à “Indispensável e Urgente Reabilitação e Requalificação do Liceu Camões”. Trata-se de um dos mais emblemáticos estabelecimentos de ensino da capital, no centro da cidade, cuja degradação é cada vez maior e cujas obras de reabilitação continuam adiadas sem fim à vista.

A petição, promovida pela associação de pais e encarregados de educação, esteve em subscrição pública desde setembro passado, “perante a inércia dos vários governos e como um grito de desespero perante as condições de segurança dos nossos filhos e de toda a comunidade educativa envolvente”.

Criado em 1902, e atualmente com cerca de 1800 alunos, o Camões é monumento de interesse público e estava na lista de escolas que teriam melhoramentos no âmbito da Parque Escolar – intervenção que acabou por não acontecer, na sequência da decisão de Nuno Crato suspender, em 2011, todas as obras novas daquele programa. Isto apesar de um relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) ter certificado deficiências funcionais e estruturais a exigir requalificação – nomeadamente ao nível do reforço sísmico.

“O seu património documental e arquivístico é uma das referências na investigação científica, cultural e histórica, dado o volume de documentação que dele faz parte integrante”, lembram os peticionários sobre este liceu histórico. Para além da evidente degradação de todo o edifício, os laboratórios aguardam “requalificação de estruturas, instalações e equipamentos”, pode ler-se no texto da petição que esta tarde chega ao Parlamento.

Mais: o campo de jogos está encerrado há dez anos e “carecem de integral modernização todos os equipamentos e valências desportivas” da escola.

“Não obstante os pedidos de esclarecimento e agendamento com sua excelência o senhor ministro da Educação, ainda não foi estabelecida a data de início das obras classificadas como urgente e indispensáveis nem foi prevista a sua abrangência e respectiva calendarização. Várias foram ainda as insistências asseguradas por vários partidos políticos para que a Administração Pública caracterize e evidencie o ponto de situação e evolução da situação descrita”, sublinham ainda os peticionários.

Depois de entregue, a petição terá de ser debatida pelos deputados – e os subscritores esperam que esta nova iniciativa permita desbloquear as obras que desde 2011 ficaram adiadas sine die.

Em 2013 professores, pais e alunos, antigos e actuais, da secundária de Lisboa, juntam-se para uma gala de solidariedade, no Coliseu dos Recreios. Deixam uma promessa: não vão deixar cair o Camões.

No Coliseu dos Recreios em Lisboa foi palco de uma gala cujo objectivo é angariar pelo menos 20 mil euros – tanto quanto vai custar esta iniciativa patrocinada por privados – para a reparação urgente das janelas e do escudo que está sobre a porta principal, cheio de fissuras, em risco de queda.

Entre concertos, peças de teatro, dança e testemunhos de actuais e antigos alunos – entre eles nomes como Durão Barroso, Mariano Gago, Nicolau Breyner, Luís Miguel Cintra ou Júlio Isidro, entre muitos outros – a organização quis mostrar que o edifício projectado por Ventura Terra, classificado em Dezembro como monumento de interesse público, é feito de mais do que paredes e tectos a cair.

O sismógrafo antigo oferecido pelos alemães nas décadas de 1930 ou 1940, quando Hitler estava no poder, ao então “Lyceu” de Camões está impecavelmente arrumado no armário na velha sala de física. Hoje é quase uma peça de museu mas se houvesse um terramoto como o que abalou Lisboa em 1755 talvez o pequeno aparelho ainda funcionasse. O edifício é que dificilmente ficaria de pé.

Em 104 anos, aquele que foi o primeiro liceu – agora escola secundária – a ter um edifício construído de raiz em Lisboa nunca teve obras de fundo e as marcas do tempo estão a pôr em risco a segurança dos que o frequentam. Enquanto esperam por uma intervenção que ninguém sabe quando (e se) irá avançar, professores, pais e alunos, actuais e antigos, recusam baixar os braços.

 

Proibido correr
Os anos pesam no Camões e isso vê-se por todo o lado, apesar dos remendos que se vão fazendo aqui e ali. Vê-se nas paredes rachadas, nos tectos forrados de cortiça a desfazer-se, nas persianas emperradas, no emblemático ginásio – simultaneamente palco de festas, projecções de cinema e discursos (como o de Salazar, a 11 de Março de 1938) e sala de ginástica – cheio de infiltrações.

Era no ginásio que antigamente se faziam os exames de admissão ao liceu. O apresentador Júlio Isidro, que entrou para o Camões aos dez anos em 1955, recorda bem o seu. Teve “zero erros” no ditado. Era o aluno número 27 de uma turma de 42. Da gaveta das memórias vai tirando as que o marcaram mais, numa visita à escola,  acompanhado por Ricardo Silva, aluno do 12.º, um dos fundadores do Movimento Camoniano (grupo de alunos que dinamiza a escola, a par da associação de estudantes) e aspirante a militar da Força Aérea.

Além da obrigatoriedade de usar gravata, era a proibição de correr no pátio que mais chateava o menino Júlio. “Às vezes dava dois passos e olhava com medo para as galerias para ver se estava o reitor, com a sua gabardina cinzenta e o chaveiro a tilintar pendurado no dedo.”

Proibido correr e jogar à bola, para “evitar prejuízos de várias espécies”, justificava o reitor Sérvulo Correia, personalidade controversa e exigente, numa nota interna de 27 de Janeiro de 1960, na qual reprovava o comportamento do aluno António Dias Ferreira (que viria a ser presidente do Sporting). Na tarde anterior, tinha levado para a escola um balão, que utilizou como bola. “E, como se isso não bastasse, teve para com o empregado [então designado “pessoal menor”] que lhe pediu o balão uma atitude pouco correcta e desrespeitosa.” Resultado: um dia de suspensão.

Hoje, os alunos têm mais liberdade mas continuam sem poder correr e jogar à bola. O campo de jogos está fechado há oito anos porque o muro que o circunda cedeu. Até já podia ter sido arranjado, mas à semelhança de outras intervenções, ficou suspenso à espera das obras da Parque Escolar. De edifício modelar à época em que foi inaugurado, em 1909, o Camões passou a liceu remediado. As salas de estudo, por exemplo, ficam na antiga casa do reitor, onde este vivia com a família, no segundo andar do edifício.

“Piolhos verdes”
O fim da figura do reitor foi uma das conquistas de Abril. É que a história do liceu anda de mãos dadas com a história do país, como retrata o livro Liceu de Camões – 100 anos, 100 Testemunhos, de Sarah Adamopoulos e José Luís Falcão de Vasconcellos. Nos corredores do liceu respirava-se o mesmo medo que se vivia nas ruas, durante o Estado Novo. “Tínhamos aqui a PIDE”, conta Júlio Isidro.

Às quartas-feiras e sábados à tarde, os alunos – o liceu foi unicamente masculino entre 1936 e 1971 – tinham de participar nas paradas da Mocidade Portuguesa no pátio, sob pena de chumbarem por faltas. O apresentador recorda o fascínio que, ainda inocente, tinha por toda a encenação. “Usávamos uns calções caqui apertados por um cinto com um S na fivela, que significava Servir Salazar.” A camisa verde e a gravata compunham o resto da farda. “Chamávamo-nos uns aos outros piolhos verdes”, diz.

Júlio Isidro foi aluno de notáveis como Vergílio Ferreira e Mário Dionísio. Lembra-se de ter falado uma única vez com o reitor, para ser interrogado sobre um “acidente” no laboratório de Química. Ricardo Silva não imagina o que seria não poder hoje falar com o director. “Não existe distância” entre alunos e direcção e isso compensa as salas frias e as paredes a cair, garante.

 

 

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