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Morreu David Bowie, um dos maiores ícones da cultura popular


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Bowie em 1983RALPH GATTI/AFP

Músico britânico tinha 69 anos. A sua influência está em todo o lado, na música, na cultura visual, na moda, nos estilos de vida. Morreu uma lenda.

O choque. A morte é-o sempre. Mas tinha acabado de lançar novo álbum, na última sexta, dia do seu aniversário, que parecia um recomeço e ninguém sabia da sua doença. O mistério e a surpresa sempre fizeram parte dele. Mas esta era a notícia que ninguém desejava.

O músico britânico David Bowie, uma das maiores celebridades da cultura popular, morreu nesta madrugada, aos 69 anos, de cancro. A notícia foi divulgada na sua página oficial do Facebook e do Twitter. O seu publicista, Steve Martin, confirmou a morte ao canal Sky News.

“10 de Janeiro de 2016: David Bowie morreu tranquilamente hoje, rodeado pela sua família, após uma corajosa batalha contra o cancro durante 18 meses”, refere a nota publicada nas redes sociais, cerca das 6h30 desta segunda-feira.

“Muitos de vós partilham esta perda, mas pedimos que respeitem a privacidade da família durante o tempo de luto”, completa a nota. O músico tinha acabado de lançar um novo álbum, Blackstar, bem acolhido pela crítica. No PÚBLICO, descrevemos o seu o novo álbum como sendo inspirado pelo jazz e como um álbum ousado.

No recente videoclipe para a canção Lazarus, realizado por Johan Renck, surgia de corpo magro e envelhecido, deitado numa cama de hospital. É natural que se façam agora alusões de que seria uma espécie de carta de despedida, mas todos os que privaram com ele nos últimos tempos e que fizeram declarações públicas – do produtor Tony Visconti ao saxofonista Donny McCaslin – sugeriam que estaria em grande forma.

Já esta segunda-feira, Tony Visconti, seu colaborador desde os anos 1960, publicou no Facebook que “a sua morte  foi como a sua vida – uma obra de arte”, dando a entender que sabia desde há um ano a esta parte que a sua morte seria uma questão de tempo. “Ele fez sempre o que quis”, escreveu. “Queria fazer as coisas à sua maneira e da melhor forma. A sua morte foi como a sua vida – uma obra de arte. Fez Blackstar para nós, como prenda de despedida. Há um ano que eu sabia que ia ser assim. No entanto, não estava preparado. Era um homem extraordinário, cheio de amor e vida. Estará sempre connosco. Por enquanto, o que há a fazer é chorar.”

Em 2013 surpreendeu o mundo, regressando ao activo. Há dez anos que não lançava qualquer álbum novo e desde 2006 que não dava concertos. As aparições públicas também rarearam. Até o seu último biógrafo, o jornalista inglês Paul Trynka, que havia escrito um ano antes o livro Starman – The Definitive Biography (2012) ficou boquiaberto com o regresso a 8 de Janeiro de 2013, no dia em que completou 66 anos, mostrando ao mundo uma nova canção, Where are we now?, e dois meses depois o álbum The Next Day, dez anos depois do último lançamento.

Na altura, em conversa com Trynka, este dizia-nos que havia sido uma surpresa enorme “porque conseguiu gravar um álbum em segredo total”, acrescentando que o impacto do seu regresso era justificado “porque teve uma influência tão grande sobre o som e a imagem da música actual que o seu desaparecimento havia deixado um grande vazio.”

Durante dois anos gravou esse disco, sem que ninguém soubesse, depois de muitas especulações sobre a sua saúde. É verdade que durante esse tempo não esteve ausente por completo (surgiu em palco ao lado dos Arcade Fire, David Gilmour e Alicia Keys e colaborou pontualmente com TV On The Radio, Scarlett Johansson ou Kashmir), mas parecia ter-se remetido à condição de pai de família, levando uma vida tranquila em Nova Iorque, ao lado da mulher, a ex-modelo Íman, e da filha de 15 anos de ambos, Alexandria. Afinal, não.

O ano de 2013 foi o do seu grande regresso. Para além do álbum, houve também uma grande exposição no museu Victoria & Albert de Londres, que nos dava a ver a sua carreira nas mais diversas dimensões. A mostra centrava-se sobre as suas múltiplas identidades e sobre a sua influência na música, nas ideias, na cultura visual e nos comportamentos, desde os anos 1960 ao presente, constando de roupas, fotos, extractos de filmes ou manuscritos inéditos.

Num tempo de cultura fragmentária, onde os artistas comunicam cada vez mais para audiências estilhaçadas, ele acaba ser uma das últimas celebridades de alcance global. “Ele é provavelmente a última estrela global da sua época” dizia-nos Paul Trynka, “e nesse sentido acaba por reflectir uma certa nostalgia pelo tempo em que isso era possível. Por outro lado é uma celebridade atípica, alguém suficientemente ambíguo que se expôs muito, mas que manteve sempre uma certa distância, um mistério, uma mística, que leva as pessoas a desejarem querer saber mais, ouvir mais, estar mais próximas.”

Era alguém que tinha um grande conhecimento das dinâmicas culturais, das mais massificadas às marginais. Fascinava-o o conceito de celebridade, como algumas canções (Starman, Andy Warhol, Star, The prettiest day) ou as palavras de Heroes (“we can be heroes / just for one day”) acabavam por reflectir. No álbum de 2013 havia também  Stars (are out tonight), mais outra auto-reflexão sobre o culto das celebridades com Bowie a olhar-se ao espelho.

“Ele é um descendente directo e linear de Andy Warhol” dizia ao PÚBLICO o curador da retrospectiva do museu Victoria & Albert, o inglês Geoffrey Marsh, em 2013, mostrando que há uma frase do poeta William Blake que o parece explicar na perfeição: “alguém que não teve um predecessor, que não vive a par dos seus contemporâneos e não pode ser substituído por qualquer sucessor.” Ou seja, uma personagem única.

Desde os anos 1960 foi Ziggy Stardust, Aladdin Sane ou Thin White Duke. Foi mod, hippie ou glam-rocker. Augurou o punk, inspirou-se na electrónica alemã nos anos 1970, beneficiou da euforia provocava pela MTV nos anos 1980 e juntou-se à vaga dançante nos anos 1990.

Em 2004 foi submetido a uma angioplastia de urgência, o que levou ao cancelamento da Reality Tour, a poucos dias da passagem pelo Porto – naquela que seria a terceira presença em Portugal, depois da estreia no estádio de Alvalade em 1990 durante a digressão Sound + Vision e de um concerto em 1996, no festival Super Bock Super Rock, em Lisboa.

Era o mestre da reinvenção. Tornou-se um cliché dizer-se que era um camaleão, alguém que mudava de pele em cada novo álbum. Mas a verdade é que David Robert Jones, seu verdadeiro nome, surpreendeu inúmeras vezes, sugerindo novos conceitos, novas personagens, novas roupagens, influenciando a cultura musical das últimas décadas, mas também o imaginário visual e os estilos de vida de inúmeras gerações.

Nasceu a 8 de Janeiro de 1947, em Londres. Os pais chamaram-lhe David Jones, nome que o músico viria a mudar 19 anos mais tarde, em 1966, devido ao êxito alcançado por um outro David Jones – o dos Monkees. No ano seguinte, lançou o primeiro disco: David Bowie.

Mas a sua carreira começou antes. Foi em 1962, no contexto dos Kon-Rads, onde surgia nas fotos de saxofone na mão – o seu instrumento preferido – que se estreou, no mesmo ano em que os Beatles lançaram Love me do. A discografia viria a ser longa: 26 álbuns de estúdio (dois dos quais com os Tin Machine), nove álbuns ao vivo e três bandas-sonoras. E mais uma mão-cheia de EPs e mais de uma centena de singles.

Space Oddity (1969) e The Man Who Sold the World (1970) prepararam o caminho para o sucesso que foi Hunky Dory (1971), o seu primeiro álbum de platina no Reino Unido, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), um dos picos criativos do inglês.

Com estes dois últimos discos começaria a sua relação com a RCA, que durou toda a década de 1970 e que logo a seguir deu mais frutos, com a estreia no número um do top britânico com Aladdin Sane, Pin Ups (ambos de 1973), eDiamond Dogs (1974), onde preconizava a revolução punk que estava à porta. Uma outra sua pele, o Thin White Duke, acaba por surgir com Station To Station (1976).

Em 1977 dá início à Trilogia de Berlim. Três álbuns gravados na capital alemã com Brian Eno ao leme: Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979). Influências futuras da new wave e do pós-punk, os trabalhos causaram estranheza na altura, mas não tanto como a que promoveria nos anos 1980, primeiro com Scary Monsters  (1980) e depois com Let’s Dance (1983), grande êxito mundial para o qual alguns fãs ainda olham com desconfiança, com assinatura de Nile Rodgers (Chic) na produção.

O epíteto “camaleão do rock” ganhava substância. Bowie era capaz de se reinventar como neo-romântico e animador das pistas de dança. Para trás ficava uma década de experiências artísticas e pessoais. Em 1980, terminava o casamento com Angie. Juntos tiveram um filho: Duncan Jones, mais tarde realizador de Moon: O Outro Lado da Lua.

Under Pressure, o single que gravou em 1981 com os Queen, ajudou a cimentá-lo como uma celebridade em todo o planeta. Ao longo da década, trabalhou ainda com Iggy Pop, Mick Jagger ou Tina Turner.

Em paralelo continuava a sua carreira como actor, tanto no cinema como no teatro. A crítica reparou nele em Absolute Beginners (Julien Temple, 1986), e não gostou. Participou ainda em Fome de Viver (John Blaylock, 1983), Merry Christmas, Mr. Lawrence (Nagisa Oshima, 1983), A Última Tentação de Cristo (Martin Scorsese, 1988), Twin Peaks (David Lynch, 1992), Basquiat(Julian Schnabel, 1996) ou O Terceiro Passo (Christopher Nolan, 2006).

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