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É o povo que contará a história da aldeia que se uniu pelo seu padre


Via / SARA DIAS OLIVEIRA

In Memoriam – Cerco a Lourosa é uma peça multidisciplinar e comunitária que remexe memórias de 1964 no largo da igreja. Apresentação acontece dia 24.

Maria Bolena tinha 17 anos e lembra-se dos dias em que o povo de Lourosa, da então aldeia da Vila da Feira, tentou impedir a saída do padre Damião Bastos, jovem de 26 anos, natural de Gondomar. O Paço Episcopal tinha indicado outra paróquia para Damião, o pároco que entrava nas fábricas de cortiça, jogava sueca e bilhar nos cafés, não cobrava a quem não podia pagar. A aldeia juntou-se no largo da igreja, em vigília permanente, não arredou pé para garantir que ninguém levava o padre. O sino da igreja tocava a rebate ao mínimo sinal suspeito. “Os patrões abriam os portões das fábricas e diziam-nos: ‘ide para o arraial que vão levar o padre Damião’. Ele ia para as fábricas, ia ver a bola, falava com o povo”.

O calendário marcava 14 de Outubro de 1964. Tamanha resistência em período salazarista levou à intervenção militar. A aldeia foi cercada com militares e jipes. Ninguém entrava, ninguém saía. Houve tiros, dezenas de feridos. Morreram duas jovens. Rosa Vilar da Silva, com 18 anos, que seria cunhada de Maria Bolena, foi atingida com um tiro na cabeça, quando tentava passar pela multidão para ir para casa cozinhar para os irmãos. “É uma recordação triste”, confessa Maria Bolena que integra o elenco da peça multidisciplinar In Memoriam – Cerco a Lourosa que no próximo dia 24 é apresentada no largo da igreja de Lourosa, onde tudo aconteceu, a partir das 21h30. A entrada é gratuita. É um espectáculo comunitário da Companha Persona, com a participação da Orquestra Criativa da Feira, escolas, artistas, população, câmara da Feira, e junta de freguesia. A peça junta 150 pessoas e envolve cerca de 30 entidades.

Maria Bolena está preparada para mais um ensaio. Prova a saia de cortiça, é preciso ajustá-la ao corpo. A seguir é hora de simular o trabalho de uma fábrica de cortiça. A broca marca o ritmo. O sino toca, o coração aperta, grita-se “Damião é nosso, ninguém o leva”. Repete-se a frase. Há um cantador de desgraças que vai contando a história. Maria Bolena lê o poema que escreveu para a jovem que não chegou a ser sua cunhada. Nesse dia, Maria de Lourdes, de 17 anos, também morreu atingida por uma bala.

Maria de Fátima tinha 18 anos quando tudo aconteceu. Integra o elenco da peça. “Foi horrível, até nos apelidaram de terroristas, são memórias que não se esquecem”, conta. Trabalhava numa fábrica de cortiça. “Os meus pais não estavam em casa, começámos a ver guardas com armas, e um soldado, com a arma em punho, disse-nos para fecharmos a porta”. A aldeia estava cercada, ouviram-se tiros. “O padre Damião era bom para a paróquia, gostávamos muito dele, por isso fizemos essa revolução para não o deixarmos ir”.

A peça está montada. Foi feita pesquisa. Falou-se com muita gente, leram-se notícias de jornais, como o Le Monde, que relatou o episódio. A ideia não é decalcar o momento, mas sim reavivar memórias dos mais velhos e passar o testemunho às novas gerações num processo de criação colectivo. “Não vamos contar a história. Damos voz às pessoas, às memórias”, revela Lígia Lebreiro, directora artística da Companhia Persona, autora e encenadora desta peça, juntamente com Simão Valinho que assina a sonoplastia. A peça abre com excertos de vídeos gravados com historiadores, pessoas que viveram aquele momento, fotografias antigas, e cruza várias linguagens, vídeo mapping, multimédia, performances, coreografias, paradas de rua. As crianças das escolas do 1.º ciclo coloriram papagaios de papel em forma de estrela, tradição que Lourosa mantém. A ideia é também não haver silêncio sobre as coisas. “Será uma catarse da própria freguesia, é uma ferida que ainda está aberta”. Lourosa ficou sem o seu padre, duas jovens perderam a vida, a população acabaria por ser conotada de terrorista durante algum tempo. É preciso fazer as pazes. “E valorizar essa liberdade de expressão que não havia na altura”, acrescenta Lígia Lebreiro.

História inspirou Bernardo Santareno
Em 1969, Bernardo Santareno publica a peça de teatro A Traição do Padre Martinho inspirada nos acontecimentos vividos em Lourosa. O escritor muda nomes, mas mantém partes essenciais da história. Lourosa passa a chamar-se Cortiçal e o narrador desvenda, no início, que o conteúdo tem parecenças com a realidade. “É o padre Martinho, pároco do Cortiçal… Bom, se quiser ser absolutamente verdadeiro, dir-lhes-ei que nem o padre se chama Martinho nem a terra Cortiçal. Mas, aqui no teatro, terão estes nomes. Manda a prudência que assim se faça: é que os principais acontecimentos desta narrativa que me propus contar-lhes são autênticos, deram-se de facto! Vieram mais ou menos descritos em todos os jornais – com as omissões e os sublinhados habituais, claro!”. Santareno inspira-se nos factos, revela os pensamentos do padre, mostra as conspirações das pessoas importantes da terra, retrata a intransigência do bispo, fala das mortes de duas jovens, da população que se juntou para não deixar o seu padre sair, das artimanhas para o colar ao comunismo.

A peça de Santareno foi representada pela primeira vez em 1970 em Havana, Cuba, pelo Grupo Rita Montaner. Em Portugal, só se estreia em Setembro de 1974 no Teatro Maria Matos, e depois no Teatro Desmontável Rafael de Oliveira, pela Companhia Rafael de Oliveira, com música de Carlos Paredes.

Em Março de 2013, Rosa Silva, natural de Lourosa, publica, a expensas próprias, o livro Cerco ao Cortiçal depois de muita pesquisa e recolha de depoimentos, fotos, notícias de jornais. Entrará na peça com um testemunho gravado. O seu livro surge por várias razões. “A história foi-me apaixonando. É uma história da minha terra e queria perceber melhor a carga de uma coisa tão singela como a transferência de um padre”, refere. Nesse livro, desvenda o que aconteceu ao padre de quem se fala. Damião Bastos é padre numa freguesia de Santo Tirso. A câmara local atribuiu-lhe a medalha de mérito do município em 2009 e um ano depois, para assinalar quatro décadas de sacerdote ao serviço dessa localidade, foi homenageado pela população com um busto e a atribuição do seu nome a uma rua. “Continua a evitar recordar em público os incidentes que há quase meio século custaram a vida a duas jovens nesse universo rural e católico onde então se afirmava a indústria corticeira”, escreve Rosa Silva.

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