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Loja de cerâmica com 99 anos despejada do Chiado para dar lugar a hotel


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“A gente vai lutar para não morrer na praia, mas não é fácil”, diz o director comercial da Fábrica Sant’Anna Mara Carvalho

Instalada na Rua do Alecrim, em Lisboa, há 99 anos, a loja da Fábrica Sant’Anna recebeu ordem de despejo do proprietário, que ali quer construir um hotel..

A um ano de completar o seu centenário, a loja da Fábrica Sant’Anna na Rua do Alecrim, em Lisboa, pode ter os dias contados. A ordem de despejo já chegou, pela mão do Grupo Visabeira, que quer converter o imóvel no qual funciona a loja num hotel dedicado a Bordallo Pinheiro.

É no número 95 daquela artéria que está instalado, desde 1916, o principal ponto de venda da “última grande fábrica de azulejos e faianças artesanais da Europa”. A segunda loja da empresa, que nasceu em 1741, está de portas abertas na Calçada da Boa-Hora, na fábrica onde são produzidas peças de cerâmica “por métodos inteiramente artesanais, desde a preparação do barro até à vidração e pintura”.

A loja da Fábrica Sant’Anna e uma das que vai fechar

O fecho iminente deste estabelecimento histórico no Chiado foi denunciado nos últimos dias pela empresária Catarina Portas, que critica a actuação do proprietário do imóvel, mas também da Câmara Municipal de Lisboa que, “ao que parece, aprovou o despejo”. “Isto é uma vergonha. Uma vergonha para a CML, certamente. E uma vergonha muitíssimo maior para a Vista Alegre e a Visabeira que assim liquidam, do alto da sua cagança e com o seu umbigo como único horizonte, mais uma loja histórica de Lisboa”, diz a ex-jornalista no seu Facebook.

Além de críticas, Catarina Portas deixa uma dúvida: “A Vista Alegre vai matar a Fábrica de Sant’Anna?”, pergunta, acrescentando que aquilo que mais a “desgosta” nesta história é o facto de “ver uma das mais antigas e prestigiadas marcas portuguesas dar cabo de outra marca portuguesa ainda mais antiga”.

“Já passámos por muitas crises em quase 300 anos de existência e com o esforço ultrapassámos tudo”, diz ao PÚBLICO o director comercial da Fábrica Sant’Anna, admitindo no entanto que esta promete ser uma batalha especialmente difícil. “A gente vai lutar para não morrer na praia, mas não é fácil”, assume Francisco Tomás.

De acordo com este responsável, o proprietário do imóvel fez saber que ia transformá-lo num hotel e “meteu uma acção do despejo” contra as lojas aí instaladas, incluindo aquela que representa. Francisco Tomás acrescenta que a empresa, com mais de dois séculos de história e na qual trabalham “cerca de 30 pessoas”, não se conforma com a decisão, que está já a contestar pela via judicial.

O director da Fábrica Sant’Anna destaca que a loja em risco “é importantíssima, tem toda uma história”. O número 95 da Rua do Alecrim, sublinha, “é mundialmente conhecido, está em tudo o que é roteiro”, constituindo “um ponto turístico da cidade” ao qual se dirigem diariamente “dezenas e dezenas de pessoas de todo o mundo”. Procurar uma localização alternativa poderia, diz, pôr essa história e património em risco, além de exigir um “investimento enormíssimo”.

Francisco Tomás conta que nos últimos dias lhe têm chegado muitos telefonemas e mensagens de apoio, incluindo de clientes além-fronteiras. “É fascinante”, diz, notando que tudo isso aconteceu “sem qualquer estímulo” da Fábrica Sant’Anna, que até aqui não se tinha pronunciado publicamente sobre o caso.

Entretanto, o Fórum Cidadania Lisboa assumiu também esta causa como sua e fez chegar à Vista Alegre, do Grupo Visabeira, um apelo “ao bom senso e bom gosto do promotor, para que reformule o seu projecto com vista a permitir a manutenção da loja da Fábrica Sant’Anna”. O grupo de cidadãos pediu também ao município que “tudo faça em prol da manutenção deste fabuloso espaço praticamente centenário de Lisboa”.

Em resposta escrita ao PÚBLICO, o Grupo Visabeira explica que o projecto de arquitectura, já aprovado pela Câmara de Lisboa, vai “manter e preservar” as características do prédio, inserido no Conjunto de Interesse Público da Baixa Pombalina, e centra-se essencialmente na “reformulação interior dos espaços e percursos, adaptando-os a quartos, suites, zonas de estar e necessárias zonas técnicas e de serviço”. Mas ressalva que “o actual estado de degradação geral bastante evidente do imóvel e a construção da infra-estrutura hoteleira implicam, tanto do ponto de vista técnico como legal, que sejam realizadas obras de remodelação e restauro profundos do mesmo”.

Para explicar o despejo da loja da Fábrica Sant’Anna, a empresa argumenta que as obras implicam intervenções que “manifestamente oferecem perigo para a segurança das pessoas e, mais concretamente, dos actuais inquilinos de fracções do imóvel”. A denúncia do contrato de arrendamento foi comunicada em Abril e produzirá efeitos “nos termos legais”, ou seja, pelo menos seis meses após a comunicação.

A obra, segundo a empresa, estará concluída no final de 2016, e representa um investimento de 5,1 milhões de euros.

A Visabeira não respondeu à pergunta do PÚBLICO sobre a hipótese de permitir que a loja voltasse a instalar-se no local depois de concretizado o novo projecto.

Notícia actualizada às 11h04: acrescentadas respostas do Grupo Visabeira

 

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