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O novo vídeo de Kanye West afinal é uma peça de museu, assinada Steve McQueen


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Até terça-feira, o mash-up que o cineasta e artista visual britânico fez a partir de duas novas canções de Kanye West, All Day e I feel like that, pode ser visto no Los Angeles County Museum of Art. Depois pode desaparecer para sempre.

Vai haver, não se sabe quando, disco novo de Kanye West, e basta esse rumor de epifania a caminho para que todo o mundo do entretenimento já esteja em natural contagem decrescente. Mas pronto, Kanye West é Kanye West (nas suas próprias palavras: uma espécie de Messias) e portanto até lá (seja lá quando for, uma vez que os dias passam e SWISH não tem data de lançamento anunciada) o mundo não pode limitar-se a estar em contagem decrescente, tem de estar em verdadeiro estado de alerta máximo, porque pode haver pequenos abalos antes do grande terramoto. O último sobressalto é este que está a inundar o Los Angeles County Museum of Art: um videoclip de Steve McQueen (o realizador de Fome, Vergonha e 12 Anos Escravo) que não é bem um videoclip.

Oficialmente estreado em Março na Fundação Louis Vuitton, como acontecimento paralelo da Semana de Moda de Paris, o filme que o oscarizado cineasta e artista visual britânico fez juntando duas novas canções daquele que é talvez o mais esmagador dos músicos em actividade – o single de avanço All day e a até então secreta I feel like that – desapareceu verdadeiramente do mapa. Até que, no início da semana passada, o Los Angeles County Museum of Art (LACMA) fez saber que faria a estreia norte-americana do filme numa exposição pop-up de apenas quatro dias, a contar desde este sábado.

A seguir, é possível que All day I feel like that se eclipse para sempre, uma vez que não está para já prevista nenhuma outra apresentação pública e que também não parece provável que venha a ser usado como videoclip de qualquer uma das duas canções do novo álbum de Kanye West – ou então que acabe por ser adquirido por um museu, uma galeria ou um coleccionador privado, como a esmagadora maioria das obras de McQueen, que aliás está representado na colecção do próprio LACMA com o seu voo picado sobre a Estátua da Liberdade, Static, de 2009 (em Portugal está representado na colecção do Museu de Serralves, onde em 2003 mostrou a exposição Carib’s Leap –Western Deep).

Entretanto, e para quem não pode ir presencialmente a Los Angeles vê-lo, o filme está disponível no YouTube em versão não-autorizada (e parcial) produzida a partir de uma captação amadora feita durante a sua passagem por Paris. Aí se vê, num único plano-sequência que no formato original dura nove minutos (o vídeo do YouTube mostra apenas sete), um Kanye West acossado pelo olho insistente da câmara à mão de McQueen, como um touro perseguido pelo seu matador; depois, quando All day acaba e I feel like that começa, McQueen encosta West literalmente às boxes, como se o músico se rendesse à inevitável predação a que está sujeita uma estrela global do seu tamanho (e do tamanho da mulher com quem casou, Kim Kardashian). De resto, na conversa de acesso draconianamente restrito que o LACMA organizou na sexta-feira para lançar o acontecimento, o cineasta assumiu que o filme é objectivamente um comentário acerca da violência big-brotheriana da exposição pública de Kanye West: “É sobre o olhar, e sobre querer estar no olhar, e sobre seguir o olhar.”

West, o próprio, parece conformado com o preço da fama, pelo menos a avaliar pelo que disse logo a seguir (não é possível, claro, ser uma espécie de Messias e pretender o anonimato): “Eu e a minha mulher temos formas extremas de beleza – a beleza visual dela, a minha beleza sónica.” Talvez não saibam é viver com isso: “Sou uma má celebridade, mas um artista óptimo.”

“Verdadeiros artistas”
O encontro de Steve McQueen e Kanye West na sexta-feira, que o director do LACMA, Michael Gavon, descreveu como um choque de titãs entre “o músico que vendeu 32 milhões de discos e o cineasta que ganhou o Oscar” (12 Anos Escravo foi o melhor filme em 2014), serviu sobretudo para explicar os bastidores do videoclip que não é bem um videoclip (tanto o cineasta como o músico se lhe referem eufemisticamente como “peça”, “obra” ou “colaboração”). Há dois anos, contaram então, West ligou a McQueen depois de ter ficado profundamente impressionado com a retrospectiva integral que viu no Schaulager, em Basileia, e ficaram uma hora e meia ao telefone. O telefonema seguinte, esclareceu o cineasta, durou duas horas e um quarto. Mantiveram-se em contacto, cumpriram os mínimos protocolares (West convidou McQueen para o seu casamento com Kardashian, McQueen apareceu), mas só decidiram de facto fazer alguma coisa juntos quando se cruzaram por acaso em Londres este ano: já a pensar na campanha de lançamento de SWISH, o músico ia começar a rodar um vídeo em Inglaterra cinco dias depois e pediu a McQueen para se juntar.

Do que aconteceu a seguir entre aquelas duas cabeças nas docas-museu de Chatham (um processo sumário: apenas três takes, usaram o último, diz o Los Angeles Times?) resultou o filme que o LACMA exibe por estes dias e que para Kanye West tem equivalido a uma experiência paranormal: “Sinto-me como se tivesse sido raptado por extraterrestres. Só o facto de poder sentar-me ao lado do Steve num contexto artístico… Sou demasiadas vezes posto num contexto pop. Dava tudo – não, dava dois dos meus Grammys para poder permanecer com ele neste contexto”, suspirou, segundo a Vanity Fair. É, continuou, um contexto mais bem frequentado do que a indústria musical, onde “já não restam muitos verdadeiros artistas” do tipo “Kurt Cobain ou Picasso”, apenas gente obcecada com “patrocínios e gestão da imagem” e condenada a “ser esquecida”: “Eles conseguiam de facto chegar-te à alma, como o segundo filme do Indiana Jones, e arrancar-te o coração.”

Para Steve McQueen, que em tempos jurou que “nunca faria um videoclip” (e de facto não é um videoclip o seu belíssimo Girls, Tricky, que em 2001 gravou numa sessão de estúdio com o músico de Bristol e que Kanye West certamente viu na integral do Schaulager que tanto o impressionou), a colaboração com uma das stars mais influentes da indústria musical parece ser mais um passo em direcção ao mainstream, depois de 12 Anos Escravo. Não foi, claro, isso que disse na conversa do LACMA, em que descreveu All day I feel like that como “um retrato microscópico de West, com a câmara a funcionar como observador literalmente in-your-face“. West, elogiou o cineasta, fez exactamente o que lhe pediu: chegou às filmagens exausto e esgotado, e depois deixou que a câmara fosse “para cima dele”.

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