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Colecção “SEC”. Arte antiga


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LEONEL MOURA

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Um assunto menor agitou 14 pessoas na semana passada. Motivo: inauguração do novo espaço do Museu do Chiado com apresentação da chamada colecção SEC, ou seja, Secretaria de Estado da Cultura.
A enorme excitação envolveu pouca gente. Mas, nas redes sociais e nalguns jornais, sobretudo no Público, a intensidade dos argumentos sugere que a coisa é muito importante. Não é.
Convém explicar a origem da polémica. É uma história comprida, desculpem.

A partir dos anos 60, com maior incidência no Portugal democrático, a Secretaria de Estado da Cultura foi adquirindo obras contemporâneas, ou seja, realizadas por artistas vivos. Não existindo à época museus nem colecionismo parecia importante preservar a arte do nosso tempo. A maioria das aquisições foi feita por iniciativa de Fernando Calhau, ele próprio artista e funcionário da SEC, muito ao sabor da disponibilidade financeira e, num processo voluntarista, refletindo o seu gosto e amizades.

Sem estrutura museológica, a SEC guardou as obras onde podia. Na garagem da sua sede na Av. da República em Lisboa, em Belém, nuns barracões que sobraram da exposição do Mundo Português, em gabinetes dos Ministérios, Embaixadas, enfim. Pelo meio perderam-se coisas, arderam outras. Com a criação da Fundação de Serralves o grosso da “colecção” foi aí depositado.

Em determinada altura pensou-se integrar este acervo no único Museu do Estado que, tendo o nome contemporâneo, ainda que de outra contemporaneidade, se dedica à arte portuguesa. O secretário de Estado actual fez um despacho incorporando a “colecção” no Museu do Chiado. A ampliação do espaço permitiu a organização de uma exposição com este espólio. Só que, entretanto, Serralves não gostou da ideia e o seu presidente queixou-se a Passos Coelho. Com a exposição já montada, o SEC deu ordem para se retirar qualquer referência que pudesse sugerir que a “colecção” pertencia ao Museu do Chiado. O director recusou e demitiu-se.

Desde então temos assistido a exercícios de solidariedade com o ex-director ou de justificação pela atitude de Serralves. Mas isto é um daqueles filmes só com maus. Não há heróis. De um secretário de Estado que revoga o seu próprio despacho, a um presidente de Serralves queixinhas, a um diretor que à primeira contrariedade se demite e depois não para de se lamentar disso mesmo, não temos ninguém que se aproveite.

Não por acaso escrevi sempre “colecção” entre aspas. Toda a gente discute a intriga, mas ainda não vi ninguém falar da dita colecção. A começar por saber se se pode chamar colecção a um mero aglomerado de obras, reunidas de forma casuística ao sabor de muito amiguismo, umas melhores, outras absolutamente inapresentáveis. Não sou crítico de arte, nem historiador, mas como artista não posso deixar de ter um olhar crítico sobre o que fazem os meus colegas. Não posso também deixar de procurar entender o contexto histórico em que nos foi dado existir. Pelo que vi, e imagino que seja do melhor, a “colecção” SEC é duplamente medíocre. Nas obras, já que os artistas mais relevantes são representados por trabalhos de segunda ou terceira linha; pelo conjunto, que mostra uma arte portuguesa pouco inovadora, derivativa do que outros fizeram, noutros locais e no tempo próprio.

Sobressai ainda desta polémica uma disputa subliminar entre Serralves e o Chiado, com o bairrismo Porto/Lisboa a vir ao de cima, para saber quem representa a arte contemporânea portuguesa. Ora a verdade é que aquilo a que os vários interlocutores chamam “arte contemporânea” é já uma arte antiga, uma arte do século passado, que não representa o mundo atual (como é suposto fazer aquilo que é contemporâneo). A arte do século XXI caracteriza-se por uma forte ligação à ciência e à tecnologia, não como ilustração como muitos imaginam, mas como aplicação do conhecimento científico na prática artística. A vasta maioria dos artistas portugueses e sobretudo os críticos, organizadores e diretores de museu ainda não entenderam isto, nem têm bagagem conceptual atualizada que lhes permita entender. Continuam por isso agarrados ao passado e às suas polémicas estéreis.

Artista Plástico

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