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Casa-Museu Medeiros e Almeida – Peça do mês de Julho ‘Garniture Meissen’


Fábrica de Meissen, Andresen, Emerich (1843-1902) Meissen, Alemanha, 1888 Porcelana moldada, policromada e dourada Relógio: metal, esmalte e vidro Relógio: Alt. 101 cm. x Larg. 70 cm. Candelabros: Alt. 104 cm. x Larg. 38 cm.

Garniture em porcelana de Meissen com decoração polícroma e pormenores em ouro sobre o vidrado, formada por um relógio de mesa e dois candelabros de nove lumes, assinada por Emmerich Andresen, chefe do departamento de escultura da fábrica de Meissen entre 1886 e 1902.

A Fábrica de Meissen
Desde o século XIII que a Europa importava porcelana da China, mas é a partir do século XVI, com a abertura da rota marítima pelos portugueses e o surgir de uma série de companhias especializadas no comércio entre a Europa e o Oriente – a mais destacada das quais a VOC, Dutch East India Company -, que a porcelana está disponível em grandes quantidades, se bem que a preços muito elevados. Embora as experiências para descobrir qual o segredo da porcelana tenham começado desde muito cedo no continente, será só em 1708 que Johann Friedrich Böttger, alquimista alemão sob o protetorado de Augusto II o Forte, Eleitor de Saxe, consigue finalmente acertar a fórmula da porcelana dura, o que dará lugar em 1710 à fundação da Fábrica de Porcelana de Meissen. Apos o êxito de Böttger, outros países europeus entraram numa corrida para conseguir obter a cobiçada fórmula, sendo que em poucos anos surgem fábricas de porcelana um pouco por todo o continente (Áustria, França), embora com resultados muito díspares.

A produção de Meissen divide-se em várias etapas. Durante a fase inicial de experimentação Meissen segue de perto modelos chineses e japoneses, embora rapidamente comece a conceber desenhos próprios – destacando-se o uso da cor que caracteriza a sua produção – que, curiosamente, serão posteriormente copiados na China para exportar para Europa.
Um segundo período será conhecido como período Kändler, no qual Johann Joachim Kändler, um dos mais importantes artistas na história de Meissen, dirige os ateliers; durante esta fase abunda o fabrico de pequenas figuras e de grupos com cenas galantes de grande qualidade que influenciarão a porcelana por toda Europa, cabendo ainda destacar as suas grandes esculturas de animais. Durante a guerra dos Sete Anos (1756-1763), as tropas prussianas ocupam Meissen e apesar da produção de peças ser muito prolífica, estas já não têm o brilho do período anterior o que, juntamente com a mudança de gosto que surge com o Neoclassicismo e o auge da porcelana francesa de Sèvres, dará lugar a que Meissen perda o monopólio estilístico que até então mantinha.

Durante o século XIX, muita da produção baseou-se no sucesso prévio, reeditando modelos anteriores dando lugar a um ‘segundo rococó’. Porém, nem todo o fabrico destes anos serão repetições, havendo também lugar a novas e elaboradas criações, de notável execução, tendência que é própria deste período e evidente na peça em destaque da Casa-Museu.

A garniture da Casa-Museu
Este conjunto de relógio de mesa e dois candelabros pertencente à coleção da Casa-Museu Medeiros e Almeida é obra de Emmerich Andresen, tal como atesta a assinatura – E. Andresen -, gravada na própria porcelana na parte posterior direita do relógio, onde também aparece indicada a data; 1888. As três peças apresentam também a marca de manufatura de Meissen; duas espadas cruzadas em azul sob o vidrado, marca que começa a ser usada em 1722 e cujas pequenas variações permitem uma datação aproximada.

 

 

 

Embora inserida no estilo oitocentista de Meissen, com uma linguagem ligada ao rococó e uma ornamentação excessiva, esta garniture sobressai por entre a produção da época pela sua monumentalidade e pelo seu rico programa iconográfico. Como já foi referido, no século XIX era habitual realizar cópias a partir de modelos da época áurea de Meissem, porém este não parece ser o caso, já que habitualmente estas reedições eram marcadas com números incisos que faziam referência ao modelo original reproduzido.

O conjunto, profusamente ornamentado, com aplicação de vários tipos de flores e esculturas ricamente policromadas, reservas decorativas e apontamentos em ouro sobre o vidrado, foi pensado para ser visto de frente, estando a parte posterior da peça central, o relógio, completamente desprovida de qualquer tratamento, enquanto nos candelabros, embora trabalhados em todos os lados, também se privilegia a leitura frontal.

O relógio
O relógio é composto por três corpos: base, corpo central e uma composição de topo. Na base, semicircular e de cinco pés em forma de enrolamentos vegetalistas, destacam-se sobre fundo carmesim, quatro reservas ovais com pinturas a sépia – baseadas em gravuras por identificar – que representam as quatro estações do ano com grupos de três putti com os respetivos atributos, da esquerda para a direita: o inverno (fogo), o outono (uvas), o verão (espigas de trigo) e a primavera (flores).

 

 

 

 

 

No corpo central, entre concheados e flores, a decoração organiza-se à volta do mostrador do relógio, de numeração romana em esmalte preto e dourado sobre fundo branco com decoração dourada. Na parte inferior, uma reserva retangular representa uma vista panorâmica de Florença, com o rio Arno e a cúpula da catedral de Santa Maria del Fiore em destaque.

 

 

Ladeando o relógio duas figuras: à esquerda uma figura masculina segurando uma tocha – Hefesto (Vulcano), deus da frágua e do fogo, patrono da metalurgia e dos artesãos -, e à direita uma figura feminina seminua, com uma cartela onde aparecem desenhados um esquadro e um compasso – personificação clássica da Arquitetura.

 

 

 

A composição que encima o conjunto é composta por três figuras femininas seminuas sobre uma nuvem e um arco-íris que representa três irmãs  conhecidas como as três Moiras (Fates ou Parcas); divindades que controlam o destino dos mortais e determinam o curso da vida humana. À direita Cloto (Nona), que tece o fio da vida; à esquerda Láquesis (Décima), que puxa o fio da vida; e no centro Átropos (Morte) que segura na sua mão a tesoura com a qual corta o fio da vida.

 

 

Os candelabrosAmbos os candelabros têm uma estrutura similar: base com três pés formados por enrolamentos vegetalistas e três reservas ovais com pinturas em sépia similares às do relógio, com grupos de três putti com atributos relativos às artes e à música; corpo central que se desenvolve à volta de um tronco com decoração floral e figuras alegóricas à volta; e uma parte superior com três braços, cada um dos quais com três lumes, e um grande arranjo de diferentes tipos de flores a rematar a composição.

Um dos candelabros representa o ‘Dia e o Trabalho’; à esquerda da composição, o Dia é uma figura feminina de olhos abertos, coroada de raios solares, com um galo a seus pés e à direita, o Trabalho representa-se com um homem com uma bigorna, martelos e uma caixa de joias. No outro candelabro representa-se a ‘Noite e a Boémia’; a Noite é uma figura feminina adormecida, com um manto pela cabeça e coroada com uma lua (partida), com uma coruja aos pés e a Boémia é uma figura masculina segurando uma guitarra e um copo de vinho na mão. Ambos os grupos são acompanhados de dois putti, um na frente e outro na parte de atrás.

 

 

 

Esta monumental garniture – monumental pelo seu tamanho e pela riqueza do seu programa iconográfico – será provavelmente fruto de uma encomenda específica. É de salientar que, a partir dos modelos para os diversos elementos que compõem o conjunto, se realizaram nos anos seguintes figuras e grupos autónomos, mais de acordo com a produção da altura, como é o caso da ‘Noite’ ou do grupo ‘As três Fates’, que ainda hoje é frequente encontrar à venda em diversos leilões.O autor: Emerich Andresen
Emmerich Adrian Otfried Andresen, escultor e desenhador de peças de porcelana, nasce em Utersen (Holstein, Alemanha) a 20 de Fevereiro de 1843. Aprendiz de Ernst Gottfried Vivie em Hamburgo entre 1859 e 1863 e, em seguida, de Ernst Hähnel em Dresden onde, posteriormente instala o seu estúdio. A sua obra, expoente do revivalismo rococó da segunda metade do século XIX foi muito apreciada pelo Kaiser Wilhelm I, que, em 1871 compra a estátua com a que Andresen se apresentou pela primeira vez na Exposição de Arte de Berlim. Autor de monumentos públicos, terracotas e porcelanas, participou também na decoração de um dos iates imperiais Hohenzollern (um dos vários iates com este nome usados pelos imperadores alemães entre 1878 e 1918). Entre 1886 e 1902, ano em que morre, dirige os ateliers de escultura da Real Fabrica de Porcelana de Meissen.

Proveniência

Esta garniture, o relógio e os dois candelabros de nove lumes, foram adquiridos por António de Medeiros e Almeida em 1971 em local desconhecido, não se sabendo nada da sua história anterior.

Samantha Coleman-Aller
Casa-Museu Medeiros e Almeida

Bibliografia

DUCRET, S., Porcelaine de Saxe et autres manufactures allemandes, Fribourg: Office du Livre, 1962
HONEY, W.B., European Ceramic Art from the end of the Middle Ages to About 1815. A dictionary of Factories, artists, technical terms et cetera, Londres: Faber and Faber, 1952
HONEY, W.B., German Porcelain, Londres: Faber and Faber, 1947
MORLEY-FLETCHER, H., Meissen, Londres: Barrie & Jenkings, 1971
SIGÜENZA MARTÍN, R., La mitología en la porcelana de Meissen, Madrid, Museu Cerralbo, 2008
WALCHA, O., Meissen porcelain, Londres: Studio Vista, 1981

Outros manuais

CASTIÑEIRAS GONZÁLEZ, M.A., Introducción al método iconográfico, Barcelona: Ariel, 1998
HALL, J., Dictionary of Subjects and Symbols in Art, Boulder: Westview Press, 2008 (2ª edição)

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