P.A.M. – Património, Artes e Museus

Início » arte » A cultura em tribunal

A cultura em tribunal


Via

ALEXANDRE PARAFITA*

Confrontada com a exclusão, reincidente, no apoio à sua atividade por parte da Secretaria de Estado da Cultura, a companhia transmontana de teatro Filandorra anunciou que vai chamar à “barra” dos tribunais aqueles que assumem, institucionalmente, tal decisão. A ideia é que justifiquem, sob tutela judicial, aquilo a que chama de “crime cultural”, resultado de um concurso anacrónico, que mais parece um jogo de sorte ou azar, uma espécie de “raspadinha”, em que os critérios são decididos unilateralmente, desvirtuando todo um trabalho resistente no interior do país.

E havendo crime, a reincidência torna-o mais grave. Há um ano, celebrando o Dia Mundial do Teatro, os atores da companhia, revoltados com idêntica exclusão dos apoios governamentais, e receando terem de fechar portas, saíram para a rua a vender bilhetes a um euro para os seus espetáculos. Um gesto simbólico, denunciador dos olhares de indiferença com que o Estado olha para o interior cultural, que colheu grande solidariedade pública.

Agora resolvem ir para tribunal. Certamente, no momento do arremesso de subterfúgios legais pelos putativos réus, há de perceber-se que um processo desta natureza está talhado para dar em nada. Contudo, alguma coisa de substancial já se fica a saber e aí o juízo público é infalível: 29 anos a formar públicos para o teatro no interior do país valem zero, ou quase zero, para a Secretaria de Estado da Cultura; levar o teatro a todos os públicos, em escolas, jardins de infância, universidades, lares de idosos, terreiros das aldeias, igrejas e mosteiros, cine-teatros… pouco mais que isso. E o que valem os reencontros dos escritores com os públicos, chamando as crianças e os jovens para o mundo mágico dos livros? E pôr as populações dos meios rurais a interagir com obras e autores emblemáticos como Raul Brandão, Tcheckov, Lorca, Molière, Torga, Garrett, Gil Vicente, Goldoni, Brecht, José Luís Peixoto, Saramago, Shakespeare… o que vale, afinal?

Que o teatro vive de ficções, bem se sabe. Mas é perverso que tenha de sobreviver no seio de uma realidade cruel, a da indiferença de quem governa a cultura, onde, no lusco-fusco dos palcos vazios, agoniza uma mentalidade neoliberal dominada pela fealdade do seu próprio absurdo.

*ESCRITOR

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: